segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Abril de 2003 - numa estrada perto de Bagdad, que ligava a capital do Iraque ao aeroporto, entrámos no inferno. De súbito e sem aviso, a estrada fica congestionada; de carcaças carbonizadas de veículos, ainda com os ocupantes lá dentro. Mais de dois quilómetros da mais dantesca das visões, uma coluna de refugiados apanhada no fogo cruzado, sem hipóteses de escapatória. Não sei se alguém sobreviveu, mas o que eu sei, foi que, no tempo irreal que demorámos a percorrer a longa serpente de ferros retorcidos, queimados,esmagados, o meu cérebro como que bloqueou. Ecoam-me na memória, em tons vagos mas pungentes, imagens de corpos negros e calcinados, de bocados de gente, de uns pés soltos, sapatos e meias, nada acima do tornozelo, uns pés apenas. De mãos estendidas, de esgares de dentes demasiado brancos, de desespero e de dor. Volutas de fumo enchiam o ar e queimavam a garganta; e depois havia o cheiro. Sim, eu já o conhecia, mas nunca nos habituamos verdadeiramente.  Alguém ai consegue conceber o cheiro de mil cadáveres queimados e a caminho da decomposição? Nunca mais nos sai da roupa, nem da alma. Sim, eu já fui ao inferno.
E porque falo eu nisto, numa véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração?
Porque não esqueço. Nem me lembro. Vive aqui, no limbo.
Porque nunca é demais lembrar. Porque por muito má que vos pareça a nossa situação, é véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração.
Porque temos obrigação de ser felizes, apesar de todas as troikas e baldroikas.
Sejam felizes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ontem zanguei-me. Comigo próprio a ver televisão. Mais zangado fiquei por não ser capaz de mais do que me zangar. Inutilmente. Ainda. Vamos a factos, na televisão, então, falava o Primeiro Passos, "lider" desta nau desgovernada. E rezava assim: "Temos que fazer sacrificios..". Temos? TEMOS? Mas ele faz algum sacrificio, pergunto eu de modo ingénuo? Em que é que a vidinha dele é afectada pelas palavras que profere, assim impunemente, como se fosse assim mesmo? Sacrificios..disso eu sei. Eu e os outros milhôes de portugueses que de facto têm de pagar os desmandos daquela corja de abutres que há séculos nos (des)governam. Bolas, que lata. Parece quase o lamento presidencial de há pouco, que até peditórios incentivou, coitado do homem, não vá morrer na miséria. Quer dizer, eles curtiram e curtem,e partem e repartem, à grande, à portuguesa, o dinheiro de todos nós, que depois, em faltando, ai que é preciso sacrificios e tal. Sacrificios dos de sempre não é mr. Passos e apaniguados.Que lata senhores. Pouco depois, também na tv, passava uma história de duas velhotas sós, naquela solidão de velho, algures em Lisboa. A de noventa e tal! tomava conta da de oitenta e picos! acamada. Entre medicamentos e despesas várias, e necessárias, o dinheiro, claro, escasseava. Escasseava muito. Ai velhice, qu além de só, és miserável. E entretanto, rodeado de mordomias pagas por mim (sim por mim, e por ti otário como eu) e de favores, e de compadrios, o outro lá clamava:  "Temos que fazer sacrificios..".  Sacrificios o C..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que  terá acontecido a uma sociedade que se revê no “Big Brother”? Que vive mais intensamente as venturas e desventuras daqueles ratos de laboratório do que o que se passa no mundo à sua volta? Que encolhe os ombros aos escândalos da corrupção, às vitórias dos indignos, que nada faz quando se arquivam casos e processos que a todos dizem respeito, quando são feitos delírios de bandidagem com dinheiros públicos.

O que dizer de uma sociedade assim, inerte, amorfa, que se deixa pisar e humilhar apenas para não se chatear. Em que os heróis que representam os nossos valores passaram a ser uns grunhos que agridem mulheres em público e cujo vocabulário mal chega para articular duas frases seguidas. Na realidade hoje em dia para ter sucesso basta aparecer algum tempo  seguido na televisão, nem que seja numa jaula a dizer obscenidades. Para quê estudar, trabalhar, criar. Tudo desnecessário. É a cultura da imbecilidade no seu melhor. É claro que nestas circunstâncias já poucos param para pensar nas coisas que realmente importam. O que me lembra a teoria da conspiração.

Tenho para mim que andam para aí uns poderes obscuros, acima e abaixo dos países e dos governos, que são quem realmente dita as decisões. Poderes económicos, que vivem de tráficos, de esquemas, de guerras e conflitos. Vendem e compram terras, armas, drogas, modas, necessidades, reais ou inventadas, até pessoas. Em grande escala podem ser a Microsoft, ou a diamantífera holandesa De Booers e em pequena, o dono de uma empresa de construção ou o presidente de uma junta de freguesia, mas na prática os seus objectivos são os mesmos: ganhar, mais do que os outros e não importa a que preço. É claro que para isso convém não haver oposição, e se em pequena escala a coisa se resolve com umas luvas, ou uns murros, em grande isso já é mais complicado. Por vezes há que enganar países inteiros.    

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Muito tempo que não te via Blog meu. Sabes que estas coisas que implicam tempo e dedicação nem sempre são compativeis com o ritmo de vida moderno, principalmente de quem tem filhos pequenos e não tem horários de trabalho...a vida corre-me bem obrigado, a cabeça cheia de projectos que tardam em concretizar-se. Comecemos pelo principio: quero fazer video. Aliás, para quem não saiba, eu já fiz video. Eu e o meu amigo Mário fomos para a Amazónia, meados do século passado, fazer um doc sobre a tribo de indios Deni - cinco transmissões televisivas e um primeiro prémio num festival de doc no Brasil depois, a minha curta carreira videográfica chegou ao fim. Nem sei porquê, morreu simplesmente. E entretanto o mundo mudou, as tecnologias evoluiram e muito, o Mário emigrou e eu esqueci. Ora um destes dias estava eu em casa, a vasculhar os discos rigidos e vi-os: duzias de pequenos clips, na Palestina, no Afeganistão, no Libano, rodados sem ordem nem objectivo, no intervalo das fotografias. Feitos com a pequena e fiel G7, qualidade reduzida e sentido nenhum, mas ali estavam eles: testemunhas ignoradas de momentos e sons, que jaziam esquecidos nas traseiras das hard drive, à espera de dias melhores. Então tive uma epifania (estava a ver que nunca iria ter a oportunidade de usar isto num texto. Vou repetir - epifania..). Era agora ou nunca, esta era a oportunidade para eu reaprender um meio que também é o meu afinal; fotografia, video, cinema, imagem, tudo parte de uma grande familia nem sempre feliz. E assim foi, tutoriais de premiere sacadinhos da net, programa instalado e pronto, clips avulso com fartura - a preocupação aqui não foi a excelência do resultado final, mesmo porque o conhecimento ainda é pouco e o material para trabalhar anárquico e de fraca qualidade no geral. Apenas me interessava o aprender, usando no processo coisas que de outra forma morreriam no limbo. Também me lembrei entretanto, que instalei um link para videos no meu site que continua virgem. Pois aqui vai. Agradeço os vossos comentários, apreciações, conselhos, levando em linha de conta o que disse acima. Obrigado. Bem hajam. Uma vida feliz.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

E pronto, mais umas divagações avulsas. Esta surgiu-me quando hoje tive que pagar portagem (esqueci-me que tinha combinado comigo próprio só viajar em nacionais..) e veio-me à memória um texto que li em tempos sobre o perigo de viajar nas estradas no séc XIX devido aos...salteadores! quere-me parecer que não mudou muita coisa entretanto. Roubado por roubado antes por profissionais certificados, de arma em punho e atitude a condizer, do que por gente que sofreu bullying a mais em pequenino, se é que me entendem. Palavra de honra que às vezes (muitas) fico fulo com isto e não entendo porque razão não se persegue até à exaustão  -  e aqui refiro-me à minha própria classe profissional,os jornalistas - quem nos f#$% sem sequer nos levar a jantar primeiro. Exemplo: um determinado ministério, onde o ministro reinante três meia volta se anda a pavonear de lambreta, adquiriu para uso da personagem um Audi A8 de muitos mil euros. WAF...não bastava um A4? Pronto, um A6? Não, tinha que ser um topo de gama, o mais caro, o mais não sei quê, porque sua exc, precisa de viajar em estilo. À pala dos outros claro. Não era de sair todos os dias na imprensa, tipo "dia 149, o ministro X continua a usar a viatura exorbitante, à custa da nação de papalvos, i.e. nós." Neste e noutros casos haviamos de ser como cães de fila, não largar até fazer sangue. Já agora recordo que na Alemanha, à conta daqueles submarinos, recordam-se, já foram feitas prisões. Aqui é mais pensões...harggggg, qa nervos..deve ser da crise. Para amenizar a coisa uma história sem ligação ao caso; quando nos idos de 2003 entrei no Iraque, por alturas da Guerra do Golfo, viajei a partir da Siria num táxi a cair de maduro, na tentativa de passar despercebido. A meio caminho, depois de muitas horas de percurso, embalado num sono profundo, sou acordado por uma grande algazarra e dou por mim com o cano negro de uma arma a apontar na minha direcção. Eu e os meus companheiros de viagem somos retirados do táxi e obrigados a ajoelhar, mãos na cabeça (percebem a ligação aos salteadores referidos acima?), rodeados por um bando de tipos barbudos, ar ocidental e actuação inequivoca de tropas especiais. E eram, mesmo, SAS australianos, os primeiros no terreno, ainda antes da guerra "oficial" começar. Depois de um interrogatório ligeiro, perceberam que não eramos ameaça e lá nos deixaram seguir. Percorridos poucos quilómetros, ainda espantados e aliviados com o que tinha acabado de acontecer, ainda a tentar perceber bem os aontecimentos, nova paragem, nova roda de gajos armados. Estes maltrapilhos, sandálias e Kalash, decididamente iraquianos, Aii e agora pensámos..será que nos viram com os outros e queriam tirar satisafações? Bom acontece que apenas queriam boleia para fugir dali. De modo que lá seguimos, o velho táxi transformado numa pinha humana de guerreiros de segunda em fuga e nós a pensar que mais iria acontecer. Aconteceu muita coisa, mas é matéria para outras histórias. Eu gosto de histórias, de ouvir e contar. O Natal para mim, tem sempre a memória de longas refeições à mesa, rodeado de quem se ama, embrenhado em histórias que nos fazem sonhar. Feliz Natal. Façam favor de ser felizes. Abaixo o sistema. Paz.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

                        QUE TE VAYA BIEN




Que tal uma tosta mista com creme de abacate? O mesmo que vai encontrar nas tortas (sandwiches em pão redondo), nas burritas (grandes tacos) ou em muitos outros petiscos. E se for massa de feijão preto a acompanhar o pequeno-almoço ranchero e tortillas de milho com quase tudo?

    É assim que se come no México, um país em que a gastronomia é tão rica, variada e imensa como a  sua História, a paisagem e as pessoas. O segredo está na originalidade da combinação de ingredientes e no espírito caliente dos mexicanos.



   A Praça Garibaldi, na Cidade do México, enche-se todos os fins-de-semana de gente que quer ouvir tocar os Mariachis. Estes, juntamente com os Nortenhos, os Jarochos e os Trovadores enchem de música e de cor um dos locais mais típicos no centro da grande capital. A maior do mundo.

   A esta praça chegam visitantes de todo o lado, atraídos pela fama dos artistas vestidos a rigor: os Nortenhos são verdadeiros cowboys e tocam acordeon, os Trovadores são conhecidos pelas suas baladas, os Jarochos, sempre de branco e vermelho,  dedilham versos malandros nas suas harpas e os Mariachis de Guadalajara  são de todos os mais famosos, nas suas figuras inconfundíveis, roupas justas negras e sombreros como manda a tradição.

   Para além do ouvido, outros sentidos são, ao final da tarde, despertados pela intensa actividade que se começa a viver nas esplanadas, restaurantes e bares da Garibaldi. Os aromas fortes da comida mexicana espalham-se pelo ar e misturam-se com os ritmos envolventes. Num dos cantos da praça deparamos com a entrada de uma galeria de restaurantes a lembrar a Feira Popular de Lisboa -  a simpatia dos que nos chamam é quase irresistível, mas a concorrência é grande e há que escolher.

   Depois de sentados em mesas corridas, lado a lado com estranhos que nos sorriem irmanados na causa do bem comer, podemos relaxar e refrescarmo-nos com uma Sol ou uma Corona (cervejas nacionais) acompanhada de lima. Os empregados afadigam-se para atender os pedidos que não param de chegar e enquanto espreitamos a ementa podemos observar as iguarias expostas por cima do balcão: lombo de vaca, cabeça de porco assada e cabritos inteiros - enfeitados pelo verde dos legumes e ervas aromáticas.

   Decidimo-nos por umas Quesadillas Verdes, crepes de massa de milho, dobrados e recheados de carne de porco, tomate e chile. À nossa frente alinham-se frascos de diversas salsas (molhos), mais ou menos picantes consoante o gosto, e cestinhos com Tortillas, o “pão” mexicano, feito à base de milho e água.

   A rematar não resistimos a uma tequilla reposada, originária da mesma região dos Mariachis. É a mais tradicional bebida mexicana, apesar de este país ser o segundo maior consumidor de coca-cola do mundo; mas isso é outra história.



Una tequilla, por favor




   “Para começar não tem verme  e se quando beber sentir que queima, é porque não é verdadeira tequilla” – diz-se sobre esta bebida, que é um tipo de mezcal. Pode ser blanca (engarrafada num prazo de 60 dias), dorada (semelhante mas de cor amarelada), reposado (com idade entre os dois meses e um ano) e anejo (de um a cinco anos).

   A tequilla é famosa e não só no México: nos primeiros quatro meses deste ano, as exportações desta aguardente aumentaram mais de 30 por cento; a subida foi tão fulminante que inclusive ultrapassou as do sólido sector cervejeiro.

   O mezcal (na origem da tequilla) surgiu com os  conquistadores espanhóis a partir de uma bebida dos aztecas – o pulque. É feito a partir de algumas das mais de 120 variedades da planta do agave, cozida em fornos debaixo da terra. É considerado afrodisíaco e diz-se que o verme que se encontra na garrafa dá força a quem tiver coragem de o comer.

   Não pense, no entanto, que por aqui só se bebem bebidas alcoólicas, pelo contrário, os mexicanos são fãs de refrescos e de sumos naturais. Estes encontram-se um pouco por todo o lado, desde as lojas da especialidade, onde se bebem sumos 100% genuínos, e preparados no momento com praticamente qualquer fruta que se possa imaginar, até aos vendedores ambulantes que passeiam os liquados (batidos) e as coloridas aguas de fruto (sumos naturais aguados), nos seus carrinhos ou em recipientes carregados às costas.

   A figura destes vendedores  é muito comum  nos centros urbanos, especialmente nas ruas junto aos mercados. Apregoam de tudo um pouco: rodelas de ananás, fatias de melancia, manga ou côco, panquecas, tacos (tortilhas enroladas e recheadas),  totopos (versão mexicana de batatas fritas, à base de milho) e até  misturas invulgares como cerveja com chile em pó... .

   Mergulhar nos coloridos mercados mexicanos é uma experiência obrigatória para o visitante  interessado na alma mais popular deste grande país.

Perto do zocalo (praça central) da Cidade do México, onde quase todos os dias se pode assistir ou participar em danças tradicionais aztecas, estende-se o labiríntico Tepito, um grande mercado onde ao longo de várias ruas, ruelas e passeios, se pode comprar roupa, discos e cassetes, armas e artigos militares, produtos desportivos, pornográficos, remédios caseiros, brinquedos, e, claro, comida e bebida. Tudo alegremente misturado e animado pela simpatia das gentes (os portugueses são especialmente apreciados) e pelos sons dos pregões, da música ranchera ou dos últimos êxitos europeus e americanos.        

   Mais característico ainda é o mercado de San Cristobal de Las Casas, uma cidade emblemática do Estado de Chiapas, no sudeste do México. É uma das regiões do país mais rica, mas onde a população é mais pobre.  Muitos são indígenas – choles, tojoobales, tzotziles e tzeltales, herdeiros da antiga cultura maia. Foi aqui que em 1994 nasceu o movimento zapatista, que defende os direitos dos índios, e que mantem até hoje uma situação de conflito com o governo federal.

   Por detrás do Largo da Igreja de Santo Domingo, começa a estender-se o mercado: primeiro a exposição e venda de artesanato, com destaque para as indías de  Sna Jolobil  (Casa das Tecedeiras em dialecto tzotzil), uma organização que representa cerca de 800 mulheres que se dedicam a bordar panos, mantas e colchas com técnicas e motivos tradicionais maias, onde predominam imagens de flores, animais, santos e deuses que velam pelo crescimento do milho e pela fertilidade da terra.


   Um pouco mais abaixo chegamos ao espaço dos produtos alimentares, onde se cruza gente de todas as pequenas comunidades em redor da cidade.  Vêm ao amanhecer, em camions (pequenas camionetas de caixa aberta onde pessoas e mercadorias se amontoam, de maneira impossível!), para venderem e comprarem tudo aquilo que a terra dá.

   Há mangas cor de mel e papaias do tamanho de melancias, meloas que aqui se chamam melons e limons que afinal são limas, bananas que são plátanos e jitomates que não passam de tomates, verdes ou vermelhos. Ainda cebolas descascadas, pimentos cortados, folhas de cacto comestivéis, peras-abacate, laranjas, calabazas (courgettes) e anonas sumarentas. O milho e o feijão estão omnipresentes, ou não fossem os dois ingredientes básicos da alimentação mexicana, tal como os muitos, muitos, chiles picantes.

   Depois de deambular ao longo de vários quarteirões, por esta “Feira do Relógio”*com sabor tropical, o visitante pode voltar ao centro da cidade. Atravessa o jardim do coreto, onde bandas saídas de um qualquer filme de Fellini tocam trechos supostamente típicos, lê um jornal local enquanto bebe uma margarita numa esplanada e deixa-se envolver pelo ambiente.



Temperos da História

  

   San Cristobal é uma pequena cidade colonial, de ruas lineares e casas pitorescas de cores vivas, com pátios e jardins interiores. Por todo o lado, em qualquer dos muitos bares, restaurantes, cibercafés, agências de viagens, hotéis, ou apenas na rua,     turistas em busca de ideais perdidos misturam-se com ladinos (brancos ou mestiços) e índios.

   Os indígenas vivem sobretudo do pequeno comércio de rua, da venda de pulseiras e cintos tecidos, mantas garridas e bonecos que representam Marcos e os seus companheiros do rebelde EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional.     

   As mulheres  tzotzil vestem uma saia escura, que não é mais do que um grande pano de lã grossa enrolado à cintura. Completam a vestimenta com camisas de cor ou bordadas e entrelaçam fitas no cabelo negro, normalmente apanhado em tranças longas.

    A toda e qualquer hora, os camponeses bebem poson  (líquido de milho desfeito em água, que é também o primeiro alimento dos bébés, depois de deixarem o peito da mãe) e comem tortillas, preparadas diariamente .

   O ritual começa pela descamisada das espigas de milho, seguido da debulha. Os grãos são colocados de molho, em água com cal, para que a casca se solte facilmente quando o milho é lavado. Para as tortillas ficarem macias, os grãos são  moídos duas vezes para que a massa se torne mais fina; esta é reduzida a uma pequena bola que é prensada num instrumento próprio, muitas vezes rudimentar. No final, é aquecida e, às vezes, tostada, numa chapa de metal – sempre que se serve uma refeição.

   Para além do milho e do feijão, o café é a outra principal cultura em Chiapas, sendo acima de tudo   uma fonte de rendimento. Os mexicanos bebem cafe americano (fraco e servido numa grande chávena), mas nada comparável à bica portuguesa!

   Também o chocolate, antes de ser uma  guloseima internacional, fazia parte da alimentação quotidiana neste país da América Central. Uma bebida preparada com pó de cacau já era a preferida do imperador azteca Moctezuma. 

   O chocolate, o milho e o feijão fizeram parte dos primeiros produtos exportados do México para a Europa pelos conquistadores espanhóis – outro foi o chile que  Hernãn Cortez levou na sua primeira  viagem de regresso a Espanha. Estes alimentos, entre outros como o abacate, a batata e o tomate, mudaram os hábitos alimentares europeus.

   O intercâmbio da cultura alimentar fez-se nos dois sentidos enriquecendo também a tradicional cozinha mexicana, que remonta ao período pré-hispânico e às chamadas culturas do milho. As especiarias da Índia, o gado ovino e bovino, cereais como o arroz, e as azeitonas, foram alguns dos produtos levados para o país pelos colonizadores.

   Monjas vindas do velho continente abraçaram o melhor de ambas as gastronomias, contribuindo com o seu saber fazer para  a mescla de hábitos e sabores, influenciada ainda pelas migrações ocorridas no país, aquando da revolução de 1910. Os seguidores de Pancho Villa e de Emiliano Zapata (heróis nacionais), nas suas deslocações revolucionárias pelo país, proporcionaram aos mexicanos em geral o conhecimento de hábitos alimentares oriundos de outras regiões (o México tem 31 estados e um Distrito Federal).



Hey, gringo



   Foi desta mistura que surgiu aquilo que é hoje a cozinha mexicana, que se espalhou pelo mundo em versão tex-mex , um conceito falsamente atribuido à genuína culinária do México,  generalizado ao mundo através de filmes em que cow-boys rudes, de barba rija, comem “chile con carne” ao entardecer.   Este prato, principal símbolo da cultura tex-mex, é muito popular na fronteira norte do país com o Texas, EUA,  mas apenas aí.

   O conceito de gringo (nome que no México se dá aos norte-americanos) juntamente com a imagem do mexicano sonolento que dorme a siesta cobrindo a cabeça com um sombrero e a receita de feijão, com carne picada e especiarias, atravessaram fronteiras, aterrando em restaurantes pretensamente típicos, um pouco por toda a parte, incluindo Portugal. O tex-mex acaba assim por se tornar erradamente na imagem da cultura mexicana, redutora da imensa variedade do país, mas adaptável aos paladares e às sensibilidades dos outros.

   Elementos mais genuínos podem ser encontrados na comida e na decoração de uns poucos restaurantes mexicanos existentes no nosso país, nalguma música que se ouve por aí ou nos livros de Carlos Fuentes e Octávio Paz – “ O muro ao sol respira, vibra, ondula, pedaço de céu vivo e tatuado. O Homem bebe sol, é água, é terra.” 

   A cultura portuguesa também chega aos mexicanos através de nomes como os Madredeus, Fernando Pessoa e José Saramago. Ainda recentemente o Nobel português da Literatura foi recebido calorosamente no México, dando inclusive origem ao que o La Jornada (um dos principais títulos da imprensa nacional) chamou de “Saramagomania”. 

   Infelizmente a gastronomia lusa é que não encontra eco nas mesas mexicanas, excepção feita às refeições servidas na embaixada portuguesa onde o bacalhau é rei. Se um dia, passeando lá por uma qualquer rua, se deparar com uma ementa á porta de um restaurante que apregoa “Lombo à portuguesa”, desconfie!

   Entre nós ainda  são as “tequillas bum-bum” e as “margaritas” que fazem mais sucesso mas, apesar do nome, não vai encontrar estas bebidas na “Pastelaria Mexicana”, em Lisboa – é que o baptismo deste estabelecimento nasceu de um equívoco. Em 1946, data em que abriu, o local onde se encontra era vulgarmente conhecido por Praça do México. Por qualquer razão, alegadamente diplomática, desconhecida até dos serviço de Toponímia da Camâra de Lisboa, o nome em 1948 passou a ser Praça de Londres. No entanto, ali perto continua a existir a Av. do México.

   São pequenos sinais a lembrar uma grande nação: banhada por dois oceanos, o Pacífico e o Atlântico,   com uma fronteira de mais de  3 000 km, só com os EUA, desertos áridos, altas montanhas e selva tropical. O 11º país mais povoado do mundo tem quase 100 milhões de habitantes. Um décimo da população é indígena, distribuida por 56 etnias diferentes.  

    Como é que sentimentos tão diferentes podem ser expressos numa só frase? Através da voz da selva, respondem-me, do rugido dos oceanos e do silêncio do deserto, da alma das gentes. É assim o México.                                                               

  




terça-feira, 1 de novembro de 2011

Chove lá fora. Eu cá gosto de chuva. E de frio. Lembram-me cobertores confortáveis, lareiras com garrafas de aguardente velha e camisolas de gola alta. Também me lembram outras coisas. Invernos que foram infernos, em paragens longínquas, e outros mais prazerosos. E como memórias são memórias lembro-me também de um tempo em que ser fotógrafo não me bastava, queria ser fotojornalista, daqueles à Dom Quixote, lutar contra moinhos de vento, mudar o  mundo. Armado de camera e convição, vestir-me de causas, ser os olhos do mundo onde o mundo não podia chegar. E durante muito tempo acreditei, lutei, persisti. Por causa dessa vontade fui batido, roubado, raptado, apontado e nada me faria desistir. Nada a não ser a vida. Um dia, já nem sei porquê deixei de acreditar. Achei que o mundo e os homens não tinham emenda e resignei-me. Que se lixe, pensei. Comecei a trabalhar apenas para ganhar a vida e com isso o prazer esvaiu-se. Fotografar passou a ser um acto mecanico, rotineiro, às vezes até envergonhado (eu, que amava fotografar acima de todas as coisas..). Mas então o Angelo nasceu. O meu filho para quem eu tinha sonhado mil histórias  que lhe contaria e que teriam em comum o facto de serem todas verdade. Histórias que eu tinha vivido, histórias que tinham feito do mundo dele um lugar melhor. E percebi que isso não seria possivel, as histórias não passavam disso mesmo,  o mundo que eu tinha para ele não prestava e eu afinal não tinha mudado uma virgula.. 
Olhem em volta, mas que raio se passa aqui? Olhem em redor e digam-me que não se sentem indignados? Ainda não se cansaram de ser roubados, gozados, explorados, por uma corja de bandidos bem falantes e bem vestidos que vos mentem semprem que abrem a boca? Alguem me explica porque tenho eu que pagar impostos que sustentam vilanagens e estilos de vida que eu não posso ter? Alguém percebe qual a necessidade de se lucrar biliões, triliões, o raio que parta ões, o lucro pelo lucro, pelo lucro, sem moral, sem face, sem piedade. Qual é o sentido de velhos a morrerem sózinhos e indignamente porque uma merda de um empresa qualquer, ou de um Estado qualquer, ainda não percebeu que o importante são as pessoas...
Eu conheço uma história de um casal, numa aldeia. Simples, humildes, apaixonados, decidem casar, ter um filho, viver em paz, com pouco que não precisavam de muito. Ele trabalhava, talvez como motorista, ela cuidava da casa e do filho. O pouco dinheiro, bem esticado, deu para a aventura de comprar uma casa, a sua casa. Mas então o acidente, a invalidez, o interminável labirinto das seguradoras megalómanas e cegas para os pobres e os humildes, o fim da assistência social que só não termina as reformas milionárias e escabrosas de uns quantos iluminados e pronto, o sonho morreu - não tardou que o fisco, o banco, uma pôrra dessas, lhes tirasse a casa suada e esforçada e os lançasse na rua. Valeu a caridade de uma vizinha onde vivem até hoje.  A casa, essa lá continua, a cair, porque ninguém, numa espécie de justiça cósmica, a quis comprar. Mas casos destes,todos conhecemos, não é verdade? Indignamos, vociferamos, escrevemos umas coisas no Facebook, às vezes (cada vez mais, é verdade) fazemos uma manifestações e a vida lá continua. Igual. Pior. Mas ainda não basta?
Um Homem tem que ter direito à sua imagem no espelho, dizia o poeta. O meu filho tem que se orgulhar de mim, digo eu. O nosso, e sublinho NOSSO, mundo, é aquilo que fazemos dele. Raios, eu até tenho as armas - as cameras, os olhos, a vontade - e como eu muitos outros. Mas andamos distraidos não é verdade. E depois já vai ser tarde.
A luta continua. Afinal eu ainda acredito.

  A humanidade já passou por muitas ameaças - não poucas das quais, iguais à que enfrentamos hoje. Epidemias e pandemias são recorrentes na ...