first they came for the journalists and I did not speak out, because I was not a journalist. we don’t know what happened after that.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Estou de novo em África. Já cá não vinha há muito tempo, mas reconheço as cores, os sabores, as texturas, as sensações. O pó dos caminhos e o Sol quente na pele. As cidades de caminhos intransitáveis, transito caótico e gente que tudo vende nas ruas. Os campos de paisagens inacreditáveis, com bichos saidos de documentários e pessoas que vivem de acordo com ritmos antigos. A sujidade e o desmazelo, mas também a beleza esmagadora e a sensação de que de algum modo pertencemos ali. Afinal foi mesmo dali que no inicio dos tempos todos viemos, não é verdade? De facto já há muito tempo que não vinha aqui, mas hoje, dentro do Land Cruiser que se afadigava a galgar buracos, enquanto a tarde esmorecia em tons pastel, senti que em parte sempre aqui estive. Este mundo eu reconheço e entendo, mesmo quando ele não me estende a mão. Mesmo quando sou confrontado com burocracias intermináveis e atitudes inexplicáveis, até para quem vem de um país que foi despromovido da categoria de Desenvolvido para a de Outro Mundo, como é o meu caso...a história conta-se em duas penadas, aterro em Luanda com 110 kg de material de video e fotografia e imaginem o que acontece em seguida? Começa-se com 2 horas à procura da bagagem, continua-se com uma hora de espera num banco de plástico para entrar num cubiculo atafulhado de tralha, na esperança de que a nossa se encontre lá, isto depois de "convencer" um segurança com a oferta de algumas notas, passa-se para uma senhora que (muito) minuciosamente tudo vasculha e tudo escreve, mais 2 horas no tal banco de plástico, aguardando pacientemente que outra senhora descreva um a um todos os itens da bagagem em categorias enumeradas por um velho manual que obviamente não contempla modernices como 5Ds e iMacs, para no fim alguem dizer que afinal as coisas têm que passar por um despachante, entretanto fechado à horas. Normal...wellcome to Africa :)
sábado, 19 de janeiro de 2013
A vida tem destas coisas não é? De vez em quando somos confrontados com o facto mais inevitável e absoluto da existência - a morte. Fora do mundo, longe da civilização e das facilidades de comunicação que ela permite, só hoje soube da terrivel novidade, através de um post no Facebook do meu amigo e camarada José Rosendo: morreu o Yves
Debay, guerreiro convertido ao jornalismo, homem inteiro, amigo que me salvou a vida mais do que uma vez, e seguiu como se nada fosse.
Conheci-o assim - nos idos de 2003, estava eu no Iraque durante a 2ª Guerra do Golfo, é ele depositado no Lobby do Hotel Palestina, capturado pelas tropas iraquianas depois de ultrapassar os americanos com quem pelos vistos, se tinha fartado de andar a passo.
Era assim o nosso Yves, ex-oficial da Legião Estrangeira, agora editor e jornalista de uma revista dedicada à temática da guerra, profundo conhecedor dos meandros das acções bélicas e para além de tudo um gajo divertido com quem eu travei amizade quase de imediato. No periodo do vazio, entre a retirada dos iraquianos e antes da chegada dos americanos, dias de caos e pilhagem e perigos sem conta, o Yves retomou o controle das suas acções e da sua viatura - um jipe encarnado berrante, não me lembro da marca, encimado por uma enorme bandeira francesa, no qual nos passeavamos nas ruas sem rei nem roque da Bagdad daqueles dias, a ouvir ópera em altos berros.
Perdi a conta às aventuras, às situações gagas, aos cenários dantescos, às balas perdidas, que vivemos, eu ele e mais o Jean Jacques, outro francês do mesma calibre. Encheriam um livro e ainda sobraria muito por contar, como da vez em que entrámos no aeroporto sem querer, palco dos mais violentos combates, e de onde fomos expulsos por uns atónitos americanos e de onde resgatámos a Márcia Rodrigues e a sua equipa, que conosco fizeram o caminho de volta para Bagdad. Caminho errado, atalhos complicados, ameaças de helicópteros apache, tudo aconteceu nesse regresso, mas mais uma vez, a pericia e conhecimento do Yves conseguiram trazer-nos a bom porto. Ele passava check-points com uma facilidade desconcertante, era destituido de medo, tinha um raio de uma bussula na cabeça, sabia sempre como sair das situações mais delicadas. Mas desta não te safaste Yves, uma bala na cabeça na Siria, disparada por um covarde escondido na distância.
As histórias nossas que eu poderia contar Yves, os momentos que nunca mais esquecerei, porque como diz o meu amigo Rosendo "A merda da guerra tem destas coisas: cruzamo-nos por uma vez que seja e ficamos amigos para vida. Quando sentimos que o outro é boa gente". É mesmo Zé. Salam Yves.
Conheci-o assim - nos idos de 2003, estava eu no Iraque durante a 2ª Guerra do Golfo, é ele depositado no Lobby do Hotel Palestina, capturado pelas tropas iraquianas depois de ultrapassar os americanos com quem pelos vistos, se tinha fartado de andar a passo.
Era assim o nosso Yves, ex-oficial da Legião Estrangeira, agora editor e jornalista de uma revista dedicada à temática da guerra, profundo conhecedor dos meandros das acções bélicas e para além de tudo um gajo divertido com quem eu travei amizade quase de imediato. No periodo do vazio, entre a retirada dos iraquianos e antes da chegada dos americanos, dias de caos e pilhagem e perigos sem conta, o Yves retomou o controle das suas acções e da sua viatura - um jipe encarnado berrante, não me lembro da marca, encimado por uma enorme bandeira francesa, no qual nos passeavamos nas ruas sem rei nem roque da Bagdad daqueles dias, a ouvir ópera em altos berros.
Perdi a conta às aventuras, às situações gagas, aos cenários dantescos, às balas perdidas, que vivemos, eu ele e mais o Jean Jacques, outro francês do mesma calibre. Encheriam um livro e ainda sobraria muito por contar, como da vez em que entrámos no aeroporto sem querer, palco dos mais violentos combates, e de onde fomos expulsos por uns atónitos americanos e de onde resgatámos a Márcia Rodrigues e a sua equipa, que conosco fizeram o caminho de volta para Bagdad. Caminho errado, atalhos complicados, ameaças de helicópteros apache, tudo aconteceu nesse regresso, mas mais uma vez, a pericia e conhecimento do Yves conseguiram trazer-nos a bom porto. Ele passava check-points com uma facilidade desconcertante, era destituido de medo, tinha um raio de uma bussula na cabeça, sabia sempre como sair das situações mais delicadas. Mas desta não te safaste Yves, uma bala na cabeça na Siria, disparada por um covarde escondido na distância.
As histórias nossas que eu poderia contar Yves, os momentos que nunca mais esquecerei, porque como diz o meu amigo Rosendo "A merda da guerra tem destas coisas: cruzamo-nos por uma vez que seja e ficamos amigos para vida. Quando sentimos que o outro é boa gente". É mesmo Zé. Salam Yves.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Filho meu, és tudo para mim. Tudo. Hoje o teu pai sufocou lágrimas com fotografias, porque o planeta não pára de girar e as notícias têm que sair. A ti para quem eu desejo tudo, temo só te deixar um mundo sem solução, sem remédio, sem esperança. Já sonhei em muda-lo, já fui ao inferno e voltei, apenas para perceber que o inferno é aqui, junto a nós, onde o Homem estiver.
Hoje duas crianças, dois bebés, como tu, morreram, sufocados, num quarto miserável, numa aldeola perdida, no meio de nenhures, assassinados por quem mais os devia amar, pela mãe que os deu ao mundo, que era suposto protege-los com a vida mas que afinal os privou dela.
Desculpa meu filho, a herança que te deixo, um mundo onde a compaixão é um sonho ao alcance de poucos e onde a bondade é confundida com fraqueza. Eu não desisto, acredita que não, continuarei a bater-me até que a terra me coma, mesmo que todos os moinhos de vento se levantem contra mim, porque a ti meu filho, a todos os inocentes como tu faço o juramento solene de essa ser a missão da minha vida. Mesmo que às vezes só me apeteça desistir, encolher os ombros, ir para onde não haja mães que matam os filhos, seja porque razão for, porque não há, não pode haver razões que o justifiquem. Mas depois percebo que não há sitios assim. Porque o inferno é aqui, onde o Homem estiver.
Em Gaza mata-se pela terra, no Afeganistão pela religião, no Iraque pelo petróleo, em todo o lado pelo ódio. Que Deus é este, omnipotente dizem, que permite tais coisas. Ali, frente áquele quarto enegrecido, debulhado pelo fumo e pelas chamas, naquela cama de bebé, quase igual à tua, duas almas partiram sem saber como nem porquê, inocentes das causas dos adultos. Ali, frente áquele quadro de Dante, o meu coração torceu-se e chorou, e eu sufoquei as lágrimas com fotos e interrogações com imagens. Não adianta fugir, o ódio não tem pátria nem fronteira. desculpa meu filho, o mundo que te deixo.
Sabes, quando escrevo estas linhas, as palavras brotam do meu peito como de uma ferida aberta, e não páro de pensar em ti e na maneira como me olhas e me amas e me apertas e sei, sei-o cá dentro bem fundo, que o mal e o bem existem e que cedo ou tarde todos teremos que escolher um lado. E mesmo com sacrificios, mesmo com dor, mesmo sem esperança, continuarei a acreditar. Mesmo sózinho. Por ti. Por eles que não tiveram quem os defendesse. Por todos nós. Porque o mundo só acabará de facto quando nos rendermos e essa causa vale bem a minha vida. Para que um dia tenhas orgulho em mim.
Hoje duas crianças, dois bebés, como tu, morreram, sufocados, num quarto miserável, numa aldeola perdida, no meio de nenhures, assassinados por quem mais os devia amar, pela mãe que os deu ao mundo, que era suposto protege-los com a vida mas que afinal os privou dela.
Desculpa meu filho, a herança que te deixo, um mundo onde a compaixão é um sonho ao alcance de poucos e onde a bondade é confundida com fraqueza. Eu não desisto, acredita que não, continuarei a bater-me até que a terra me coma, mesmo que todos os moinhos de vento se levantem contra mim, porque a ti meu filho, a todos os inocentes como tu faço o juramento solene de essa ser a missão da minha vida. Mesmo que às vezes só me apeteça desistir, encolher os ombros, ir para onde não haja mães que matam os filhos, seja porque razão for, porque não há, não pode haver razões que o justifiquem. Mas depois percebo que não há sitios assim. Porque o inferno é aqui, onde o Homem estiver.
Em Gaza mata-se pela terra, no Afeganistão pela religião, no Iraque pelo petróleo, em todo o lado pelo ódio. Que Deus é este, omnipotente dizem, que permite tais coisas. Ali, frente áquele quarto enegrecido, debulhado pelo fumo e pelas chamas, naquela cama de bebé, quase igual à tua, duas almas partiram sem saber como nem porquê, inocentes das causas dos adultos. Ali, frente áquele quadro de Dante, o meu coração torceu-se e chorou, e eu sufoquei as lágrimas com fotos e interrogações com imagens. Não adianta fugir, o ódio não tem pátria nem fronteira. desculpa meu filho, o mundo que te deixo.
Sabes, quando escrevo estas linhas, as palavras brotam do meu peito como de uma ferida aberta, e não páro de pensar em ti e na maneira como me olhas e me amas e me apertas e sei, sei-o cá dentro bem fundo, que o mal e o bem existem e que cedo ou tarde todos teremos que escolher um lado. E mesmo com sacrificios, mesmo com dor, mesmo sem esperança, continuarei a acreditar. Mesmo sózinho. Por ti. Por eles que não tiveram quem os defendesse. Por todos nós. Porque o mundo só acabará de facto quando nos rendermos e essa causa vale bem a minha vida. Para que um dia tenhas orgulho em mim.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Eu cá, se fosse preso ao defender aquilo em que acredito, nunca me esconderia. Nunca taparia a cara, nunca tentaria passar despercebido. Antes pelo contrário, aproveitaria para gritar até que me doessem os pulmões, a força dos meus ideais. Daria a cara, junto com o coração, porque é dessa massa que são feitos aqueles que mudam o mundo. Dos outros não reza a história. Farto de meninos e meninas que atiram pedras porque sim, sem convição, sem objectivo, muitas vezes sem sequer saber porquê. Com o unico fito de criar confusão, de se vestirem de revolucionários que nunca serão, de protagonizarem epopeias de luta e resistência, sem saberem sequer a que resistem. Manifestamo-nos porque estamos fartos, e se mais fartos ficarmos lutaremos. Mas de peito feito, que a coragem não se mede atrás de máscaras. Ali nas manifestações, há homens e mulheres, que toda a vida trabalharam, e suaram, e fizeram sacrificios, apenas para a troco dos desmandos de alguns, lhes verem ser retirados os privilégios conquistados a pulso. Esses dão a cara à imagem, e por vezes até dão as lágrimas. Um dia, quando lutarem, lutarão de frente, disso tenho a certeza. Depois há os outros, aquela meia duzia de inuteis, que nunca trabalhou na vida, mas que sabem exigir e berrar e destruir, aquilo que não lhes pertence. Que raça de covardes, apregoa ideais, pelos quais nem sequer é capaz de se assumir? Somos todos muito corajosos escondidos atrás de panos e passa-montanhas, tapados pela escuridão dos números, a mandar pedras e garrafas e obscenidades, a coberto da impunidade que o anonimato permite, não é verdade?
Eu já conheci heróis a sério, daqueles que morrem se preciso for, a defender o que sabem ser certo. E que nunca, por nunca, se escondem, porque sabem que o seu exemplo, a sua voz, o seu olhar, a sua convição, a sua alma mostrada a nú, sem barreiras, são as suas maiores armas. Esses são capazes dos maiores sacrificios, porque sabem que só assim se pode vencer. Sem medo.
Não sou defensor da actuação da policia, nem das suas investidas desproporcionadas e muitas vezes imcompreensiveis. Aliás já senti na pele a mordedura do bastão. Sei, e defendo, que haveria outra forma de fazer as coisas, mais lógica e justa. Não aceito que alguem que é suposto defender e proteger, bata indescriminadamente em que lhe paga o sustento. As horas que eles ali passam, nas manifestações, de frente para a multidão, seriam mais do que suficientes para identificar desordeiros e promover acções pontuais e cirurgicas. Têm os meios e a informação. Mas assim é mais simples, e passa a mensagem musculada e de força, que este Estado (de sitio), tanto precisa. Governa-se melhor pelo medo não é verdade. Ainda pode ser que lhes saia o tiro pela culatra, mas adiante. Tudo isto para dizer que sou isento naquilo que afirmo. Neste conflito, como em outros, sei que a culpa não morre solteira e que em ambos os lados existe razão e delito. E aqui, a razão que pertence ao povo, perde-se pelas mão de uma escumalha sem principios, sem pátria e sem rosto, que pratica a violência pela violência, sem querer perceber que esse é um ciclo sem fim. Se é para lutar, façam-no de coração, e cara, e convição, a descoberto, com inteligência e objectivos mais do que simplesmente incendiar o mundo que odeiam.
Eu cá, se fosse preso ao defender aquilo em que acredito, nunca me esconderia
Eu já conheci heróis a sério, daqueles que morrem se preciso for, a defender o que sabem ser certo. E que nunca, por nunca, se escondem, porque sabem que o seu exemplo, a sua voz, o seu olhar, a sua convição, a sua alma mostrada a nú, sem barreiras, são as suas maiores armas. Esses são capazes dos maiores sacrificios, porque sabem que só assim se pode vencer. Sem medo.
Não sou defensor da actuação da policia, nem das suas investidas desproporcionadas e muitas vezes imcompreensiveis. Aliás já senti na pele a mordedura do bastão. Sei, e defendo, que haveria outra forma de fazer as coisas, mais lógica e justa. Não aceito que alguem que é suposto defender e proteger, bata indescriminadamente em que lhe paga o sustento. As horas que eles ali passam, nas manifestações, de frente para a multidão, seriam mais do que suficientes para identificar desordeiros e promover acções pontuais e cirurgicas. Têm os meios e a informação. Mas assim é mais simples, e passa a mensagem musculada e de força, que este Estado (de sitio), tanto precisa. Governa-se melhor pelo medo não é verdade. Ainda pode ser que lhes saia o tiro pela culatra, mas adiante. Tudo isto para dizer que sou isento naquilo que afirmo. Neste conflito, como em outros, sei que a culpa não morre solteira e que em ambos os lados existe razão e delito. E aqui, a razão que pertence ao povo, perde-se pelas mão de uma escumalha sem principios, sem pátria e sem rosto, que pratica a violência pela violência, sem querer perceber que esse é um ciclo sem fim. Se é para lutar, façam-no de coração, e cara, e convição, a descoberto, com inteligência e objectivos mais do que simplesmente incendiar o mundo que odeiam.
Eu cá, se fosse preso ao defender aquilo em que acredito, nunca me esconderia
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Foi durante
o almoço, daqueles de amigos, sol a aquecer o inverno lá fora, bom vinho a
regar o repasto saído das mãos mágicas do Carlos. Era aquela fase já perto do
fim, as barrigas confortadas, a palavra fácil, a preguiça a instalar-se. A
conversa espraiou-se sem destino nem direcção e passou, claro, pela actual
conjuntura sócio-económica. Um dos convivas à mesa tinha estado recentemente na Alemanha, onde
tinha tido uma picardia com um daqueles senhores louros que acham que são os
donos do mundo. "Já não precisamos de exército", dizia a criatura
movida a chucrute e cerveja de litro, "agora vamos dominar a Europa pela
economia".
Por muita
razão que se tenha, há coisas que não se dizem. Nem a memória curta de alarve
desculpa tudo - este amigo, homem do mundo e de razoável sabedoria, fez questão
de o elucidar, relembrando-o do quanto a
Alemanha devia ao mundo que a ajudou a levantar das cinzas, do fogo que ela
própria ateou. E particularmente em relação a Portugal, mostrou-lhe o que
significa para nós a palavra solidariedade, quando apesar das muitas carências
que por cá havia no pós-guerra, acolhemos centenas de crianças alemãs e
austríacas, órfãs de guerra e de amor, e demos-lhes casas, famílias, carinho, a
vida normal que qualquer criança deve ter, com paz e brinquedos e afecto, longe
das bombas e do caos lá de onde vinham. Mas lá está, o tempo apaga tudo, até a
gratidão, e ai está a arrogância de volta, junto com o desprezo pelos
aparentemente mais fracos. Onde já vi eu este filme?
Ok, eles até
podem ter alguma razão, no sentido em que o dinheiro é deles e a estroinice
nossa. Pelo menos de alguns de nós, que eu cá nunca fiz auto-estradas, nem
plantei girassóis, nem comprei frotas de carros de luxo..mas bolas, há maneiras
de fazer e dizer as coisas não é verdade? Quer dizer, PIGS???? E dedinho
esticado e olhar de desdém e ralhetes e recados e exigências e nós de chapéu
torcido nas mãos suadas e olhar baixo e vozinha gaguejante, yes sir, oui
monsieur, ja Ma'am, por
favor mais uma moedinha..vão-se mas é fornicar pá, haja decoro e orgulho.
Não sei o que vocês pensam disto, mas eu cá
começo a ficar um bocadinho farto desta gente, para quem o dinheiro é mais
importante do que as pessoas, que não se importam que haja crianças a ir para a
escola com fome e vellhos a morrer de miséria, desde que se equilibrem as
contas. Metam mas é as contas num sitio onde não vai a luz do Sol, eu cá não
quero um mundo assim para o meu filho. Está nas nossas mãos. Que às vezes só me
apetecia que estivessem à volta da garganta de alguns Gaspares que por ai há.
No próximo texto volto ao Amor, este ainda é de revolta.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Há alguns anos e várias vidas atrás estive no México, em Chiapas, a fazer uma reportagem (várias na verdade), sobre o movimento zapatista, para quem não saiba um movimento guerrilheiro pró-indigena, liderado pela figura legendária do sub-comandante Marcos. Mas esta história não é sobre os zapatistas, por muito interessantes que possam ser. É sobre nós, a TSU agora transformada em NQTSUAMENC (não Querias a TSU Agora Mete Estes No Cu), o Gaspar, o Coelho, os outros Gaspares e outros Coelhos, os impostos, mais impostos, ainda mais impostos, os bandidos, a miséria e o limite. O limite que os nossos amigos zapatistas muito bem sintetizaram num dos seus magnificos slogans - YA BASTA!(lusitano dos 7 costados passo agora a referir-lo como JÁ BASTA!).
Pssssst, cansado de ser explorado? Farto de ver, ouvir e sentir na pele, que tem que apertar o cinto mais e mais e mais? Indignado com o facto (com c, que eu não vou cá em mariquices pós-modernas) de quem lhe exige todos os sacrificios, não se dignar a dar um de exemplo? Sempre que ouve a palavra austeridade lembra-se de a sua avó lhe explicar como se matava um coelho? Sempre que ouve o nome Gaspar recorda com saudade o tempo em que ele se chamava Gasparzinho e não passava de um fantasminha brincalhão? Pois então tenho que o informar que esses são os sintomas de uma doença nada nova e pouco rara que se chama "ser português de classe média de alcunha o cronicamente fodido (para ler de um folego)".
Mas o que é isto senhoras e senhores? JÁ BASTA, não? Ou é espremer até sair sangue? Pode ser que um dia saia é o vosso sangue, ó vós que vos sentais nas senhoriais cadeiras ministeriais e que acham que tudo vos é devido..tenho uma ideia, vendam a frota dos vossos (perdão NOSSOS) "carrinhos", cortem os vossos ordenados para metade, acabem com os vossos próprios subsidios e apoios disto e daquilo, transformem os "tachos" em panelas de comida para quem precisa e os boys em men, extingam a maior parte desse escandalo que são as PPPs e as (a)fundações com dinheiros públicos, tenham vergonha na cara e decência no comportamento, deixem de se servir para servirem, transformem-se de políticos de opereta em estadistas de corpo inteiro e vão ver que num instante, sem matarem os velhos e os doentes e correrem com os jovens, este país volta a ser grande. Ou pelo menos médio, vá lá..
Acordem gentes. Acordem e exigam explicações sobre que merda é esta do BPN? E exigam não pagar os desgovernos que eles fizeram e fazem. E exigam contas. São vocês que lhes pagam os ordenados e as mordomias principescas, é a vocês que eles têm que prestar contas, de tudo, mas mesmo tudo. Ou vão deixar que os submarinos se escondam de vez nas profundezas? Com o vosso dinheiro? Vejam os exemplos de fora, vejam os islandeses, vikings sem medo de mostrar os cornos. JÁ BASTA!
E já agora pensem nisto - os zapatistas tinham outro slogan, em caso do primeiro não bastar (lembras-te Isabel?):
Espirito de poeta
Alma de criança
Coração de guerreiro!
Pssssst, cansado de ser explorado? Farto de ver, ouvir e sentir na pele, que tem que apertar o cinto mais e mais e mais? Indignado com o facto (com c, que eu não vou cá em mariquices pós-modernas) de quem lhe exige todos os sacrificios, não se dignar a dar um de exemplo? Sempre que ouve a palavra austeridade lembra-se de a sua avó lhe explicar como se matava um coelho? Sempre que ouve o nome Gaspar recorda com saudade o tempo em que ele se chamava Gasparzinho e não passava de um fantasminha brincalhão? Pois então tenho que o informar que esses são os sintomas de uma doença nada nova e pouco rara que se chama "ser português de classe média de alcunha o cronicamente fodido (para ler de um folego)".
Mas o que é isto senhoras e senhores? JÁ BASTA, não? Ou é espremer até sair sangue? Pode ser que um dia saia é o vosso sangue, ó vós que vos sentais nas senhoriais cadeiras ministeriais e que acham que tudo vos é devido..tenho uma ideia, vendam a frota dos vossos (perdão NOSSOS) "carrinhos", cortem os vossos ordenados para metade, acabem com os vossos próprios subsidios e apoios disto e daquilo, transformem os "tachos" em panelas de comida para quem precisa e os boys em men, extingam a maior parte desse escandalo que são as PPPs e as (a)fundações com dinheiros públicos, tenham vergonha na cara e decência no comportamento, deixem de se servir para servirem, transformem-se de políticos de opereta em estadistas de corpo inteiro e vão ver que num instante, sem matarem os velhos e os doentes e correrem com os jovens, este país volta a ser grande. Ou pelo menos médio, vá lá..
Acordem gentes. Acordem e exigam explicações sobre que merda é esta do BPN? E exigam não pagar os desgovernos que eles fizeram e fazem. E exigam contas. São vocês que lhes pagam os ordenados e as mordomias principescas, é a vocês que eles têm que prestar contas, de tudo, mas mesmo tudo. Ou vão deixar que os submarinos se escondam de vez nas profundezas? Com o vosso dinheiro? Vejam os exemplos de fora, vejam os islandeses, vikings sem medo de mostrar os cornos. JÁ BASTA!
E já agora pensem nisto - os zapatistas tinham outro slogan, em caso do primeiro não bastar (lembras-te Isabel?):
Espirito de poeta
Alma de criança
Coração de guerreiro!
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Pois que sim o Amor existe. Estava ali, mesmo à minha
frente, sempre que o Pedro olhava para a Ana e a Ana para o Pedro, olhos nos
olhos e mãos que não se largaram nunca. O Pedro tem 39 anos e a Ana 41. Há
pouco mais de quatro a Ana teve uma complicação cirúrgica e um AVC, que a
deixou parcialmente incapacitada e com grandes dificuldades de comunicação. O
problema da Ana já vinha de trás, estava diagnosticado, era tudo uma questão de
tempo até o inevitável acontecer. Era uma bomba relógio à espera de rebentar,
conta o Pedro serenamente, olhar límpido. Sabiam e mesmo assim avançaram,
casaram, partilharam vida e futuro incerto. E ali continuam, juntos, sem
hesitar, apesar da cadeira de rodas, do falar hesitante, das terapias
permanentes e demoradas, das dificuldades inerentes a uma vida em comum em que
um dos elementos é completamente dependente do outro. Apesar da juventude, sinónimo tantas vezes de
impaciência e egoísmo e procura do prazer. Apesar da dor, da incerteza, do medo
do futuro, das mil limitações, das muitas frustrações. Apesar de tudo e de
nada. O Pedro e a Ana acreditam em Deus, mas não na (in)justiça cósmica, que um
lapso de linguagem (ou um subconsciente atento) transformou em cómica. O Pedro
e a Ana são escuteiros, que às vezes, na brincadeira, carregam a Ana como um
andor de nossa senhora, enquanto ela ri e entoa avés. Agora a Ana já dorme na tenda contam com
orgulho, o orgulho das pequenas vitórias, que para alguns são enormes como a
vida. Pois que sim, pode-se afirmar sem
pingo de dúvida que o Amor existe.
Percebemos isso quando o Pedro, sempre de mãos dadas e olhos nos olhos com a
Ana, diz ao mundo que não foi assim tão mau o que aconteceu. Podia ter sido
muito pior, a Ana podia ter morrido e ele teria ficado sozinho.
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