terça-feira, 1 de novembro de 2011

Chove lá fora. Eu cá gosto de chuva. E de frio. Lembram-me cobertores confortáveis, lareiras com garrafas de aguardente velha e camisolas de gola alta. Também me lembram outras coisas. Invernos que foram infernos, em paragens longínquas, e outros mais prazerosos. E como memórias são memórias lembro-me também de um tempo em que ser fotógrafo não me bastava, queria ser fotojornalista, daqueles à Dom Quixote, lutar contra moinhos de vento, mudar o  mundo. Armado de camera e convição, vestir-me de causas, ser os olhos do mundo onde o mundo não podia chegar. E durante muito tempo acreditei, lutei, persisti. Por causa dessa vontade fui batido, roubado, raptado, apontado e nada me faria desistir. Nada a não ser a vida. Um dia, já nem sei porquê deixei de acreditar. Achei que o mundo e os homens não tinham emenda e resignei-me. Que se lixe, pensei. Comecei a trabalhar apenas para ganhar a vida e com isso o prazer esvaiu-se. Fotografar passou a ser um acto mecanico, rotineiro, às vezes até envergonhado (eu, que amava fotografar acima de todas as coisas..). Mas então o Angelo nasceu. O meu filho para quem eu tinha sonhado mil histórias  que lhe contaria e que teriam em comum o facto de serem todas verdade. Histórias que eu tinha vivido, histórias que tinham feito do mundo dele um lugar melhor. E percebi que isso não seria possivel, as histórias não passavam disso mesmo,  o mundo que eu tinha para ele não prestava e eu afinal não tinha mudado uma virgula.. 
Olhem em volta, mas que raio se passa aqui? Olhem em redor e digam-me que não se sentem indignados? Ainda não se cansaram de ser roubados, gozados, explorados, por uma corja de bandidos bem falantes e bem vestidos que vos mentem semprem que abrem a boca? Alguem me explica porque tenho eu que pagar impostos que sustentam vilanagens e estilos de vida que eu não posso ter? Alguém percebe qual a necessidade de se lucrar biliões, triliões, o raio que parta ões, o lucro pelo lucro, pelo lucro, sem moral, sem face, sem piedade. Qual é o sentido de velhos a morrerem sózinhos e indignamente porque uma merda de um empresa qualquer, ou de um Estado qualquer, ainda não percebeu que o importante são as pessoas...
Eu conheço uma história de um casal, numa aldeia. Simples, humildes, apaixonados, decidem casar, ter um filho, viver em paz, com pouco que não precisavam de muito. Ele trabalhava, talvez como motorista, ela cuidava da casa e do filho. O pouco dinheiro, bem esticado, deu para a aventura de comprar uma casa, a sua casa. Mas então o acidente, a invalidez, o interminável labirinto das seguradoras megalómanas e cegas para os pobres e os humildes, o fim da assistência social que só não termina as reformas milionárias e escabrosas de uns quantos iluminados e pronto, o sonho morreu - não tardou que o fisco, o banco, uma pôrra dessas, lhes tirasse a casa suada e esforçada e os lançasse na rua. Valeu a caridade de uma vizinha onde vivem até hoje.  A casa, essa lá continua, a cair, porque ninguém, numa espécie de justiça cósmica, a quis comprar. Mas casos destes,todos conhecemos, não é verdade? Indignamos, vociferamos, escrevemos umas coisas no Facebook, às vezes (cada vez mais, é verdade) fazemos uma manifestações e a vida lá continua. Igual. Pior. Mas ainda não basta?
Um Homem tem que ter direito à sua imagem no espelho, dizia o poeta. O meu filho tem que se orgulhar de mim, digo eu. O nosso, e sublinho NOSSO, mundo, é aquilo que fazemos dele. Raios, eu até tenho as armas - as cameras, os olhos, a vontade - e como eu muitos outros. Mas andamos distraidos não é verdade. E depois já vai ser tarde.
A luta continua. Afinal eu ainda acredito.

4 comentários:

  1. Faz questão de os fotografar em posições incómodas, com gente incómoda.

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  2. Faço questão mas é de lhes dar com a máquina nos cornos qualquer dia ; )
    Acreditar é o principio, depois ainda há que lutar, mesmo correndo o risco de perder.

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  3. Magnifico! Adoro a forma como escreve, como expõe os seus sentimentos do tanto que já passou. Ângelo, você é um Herói.

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