quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Filho meu, és tudo para mim. Tudo. Hoje o teu pai sufocou lágrimas com fotografias, porque o planeta não pára de girar e as notícias têm que sair. A ti para quem eu desejo tudo, temo só te deixar um mundo sem solução, sem remédio, sem esperança. Já sonhei em muda-lo, já fui ao inferno e voltei, apenas para perceber que o inferno é aqui, junto a nós, onde o Homem estiver.
Hoje duas crianças, dois bebés, como tu, morreram, sufocados, num quarto miserável, numa aldeola perdida, no meio de nenhures, assassinados por quem mais os devia amar, pela mãe que os deu ao mundo, que era suposto protege-los com a vida mas que afinal os privou dela.
Desculpa meu filho, a herança que te deixo, um mundo onde a compaixão é um sonho ao alcance de poucos e onde a bondade é confundida com fraqueza. Eu não desisto, acredita que não, continuarei a bater-me até que a terra me coma, mesmo que todos os moinhos de vento se levantem contra mim, porque a ti meu filho, a todos os inocentes como tu faço o juramento solene de essa ser a missão da minha vida. Mesmo que às vezes só me apeteça desistir, encolher os ombros, ir para onde não haja mães que matam os filhos, seja porque razão for, porque não há, não pode haver razões que o justifiquem. Mas depois percebo que não há sitios assim. Porque o inferno é aqui, onde o Homem estiver.
Em Gaza mata-se pela terra, no Afeganistão pela religião, no Iraque pelo petróleo, em todo o lado pelo ódio. Que Deus é este, omnipotente dizem, que permite tais coisas. Ali, frente áquele quarto enegrecido, debulhado pelo fumo e pelas chamas, naquela cama de bebé, quase igual à tua, duas almas partiram sem saber como nem porquê, inocentes das causas dos adultos. Ali, frente áquele quadro de Dante, o meu coração torceu-se e chorou, e eu sufoquei as lágrimas com fotos e interrogações com imagens. Não adianta fugir, o ódio não tem pátria nem fronteira. desculpa meu filho, o mundo que te deixo.
Sabes, quando escrevo estas linhas, as palavras brotam do meu peito como de uma ferida aberta, e não páro de pensar em ti e na maneira como me olhas e me amas e me apertas e sei, sei-o cá dentro bem fundo, que o mal e o bem existem e que cedo ou tarde todos teremos que escolher um lado. E mesmo com sacrificios, mesmo com dor, mesmo sem esperança, continuarei a acreditar. Mesmo sózinho. Por ti. Por eles que não tiveram quem os defendesse. Por todos nós. Porque o mundo só acabará de facto quando nos rendermos e essa causa vale bem a minha vida. Para que um dia tenhas orgulho em mim.

 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Eu cá, se fosse preso ao defender aquilo em que acredito, nunca me esconderia. Nunca taparia a cara, nunca tentaria passar despercebido. Antes pelo contrário, aproveitaria para gritar até que me doessem os pulmões, a força dos meus ideais. Daria a cara, junto com o coração, porque é dessa massa que são feitos aqueles que mudam o mundo. Dos outros não reza a história. Farto de meninos e meninas que atiram pedras porque sim, sem convição, sem objectivo, muitas vezes sem sequer saber porquê.  Com o unico fito de criar confusão, de se vestirem de revolucionários que nunca serão, de protagonizarem epopeias de luta e resistência, sem saberem sequer a que resistem. Manifestamo-nos porque estamos fartos, e se mais fartos ficarmos lutaremos. Mas de peito feito, que a coragem não se mede atrás de máscaras. Ali nas manifestações, há homens e mulheres, que toda a vida trabalharam, e suaram, e fizeram sacrificios, apenas para a troco dos desmandos de alguns, lhes verem ser retirados os privilégios conquistados a pulso. Esses dão a cara à imagem, e por vezes até dão as lágrimas. Um dia, quando lutarem, lutarão de frente, disso tenho a certeza. Depois há os outros, aquela meia duzia de inuteis, que nunca trabalhou na vida, mas que sabem exigir e berrar e destruir, aquilo que não lhes pertence. Que raça de covardes, apregoa ideais, pelos quais nem sequer é capaz de se assumir? Somos todos muito corajosos escondidos atrás de panos e passa-montanhas, tapados pela escuridão dos números, a mandar pedras e garrafas e obscenidades, a coberto da impunidade que o anonimato permite, não é verdade?
Eu já conheci heróis a sério, daqueles que morrem se preciso for, a defender o que sabem ser certo. E que nunca, por nunca, se escondem, porque sabem que o seu exemplo, a sua voz, o seu olhar, a sua convição, a sua alma mostrada a nú, sem barreiras, são as suas maiores armas. Esses são capazes dos maiores sacrificios, porque sabem que só assim se pode vencer. Sem medo.
Não sou defensor da actuação da policia, nem das suas investidas desproporcionadas e muitas vezes imcompreensiveis. Aliás já senti na pele a mordedura do bastão. Sei, e defendo, que haveria outra forma de fazer as coisas, mais lógica e justa. Não aceito que alguem que é suposto defender e proteger, bata indescriminadamente em que lhe paga o sustento. As horas que eles ali passam, nas manifestações, de frente para a multidão, seriam mais do que suficientes para identificar desordeiros e promover acções pontuais e cirurgicas. Têm os meios e a informação. Mas assim é mais simples, e passa a mensagem musculada e de força, que este Estado (de sitio), tanto precisa. Governa-se melhor pelo medo não é verdade. Ainda pode ser que lhes saia o tiro pela culatra, mas adiante. Tudo isto para dizer que sou isento naquilo que afirmo. Neste conflito, como em outros, sei que a culpa não morre solteira e que em ambos os lados existe razão e delito. E aqui, a razão que pertence ao povo, perde-se pelas mão de uma escumalha sem principios, sem pátria e sem rosto, que pratica a violência pela violência, sem querer perceber que esse é um ciclo sem fim. Se é para lutar, façam-no de coração, e cara, e convição, a descoberto, com inteligência e objectivos mais do que simplesmente incendiar o mundo que odeiam.
Eu cá, se fosse preso ao defender aquilo em que acredito, nunca me esconderia

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Foi durante o almoço, daqueles de amigos, sol a aquecer o inverno lá fora, bom vinho a regar o repasto saído das mãos mágicas do Carlos. Era aquela fase já perto do fim, as barrigas confortadas, a palavra fácil, a preguiça a instalar-se. A conversa espraiou-se sem destino nem direcção e passou, claro, pela actual conjuntura sócio-económica. Um dos convivas à mesa  tinha estado recentemente na Alemanha, onde tinha tido uma picardia com um daqueles senhores louros que acham que são os donos do mundo. "Já não precisamos de exército", dizia a criatura movida a chucrute e cerveja de litro, "agora vamos dominar a Europa pela economia".

Por muita razão que se tenha, há coisas que não se dizem. Nem a memória curta de alarve desculpa tudo - este amigo, homem do mundo e de razoável sabedoria, fez questão de o elucidar, relembrando-o do quanto  a Alemanha devia ao mundo que a ajudou a levantar das cinzas, do fogo que ela própria ateou. E particularmente em relação a Portugal, mostrou-lhe o que significa para nós a palavra solidariedade, quando apesar das muitas carências que por cá havia no pós-guerra, acolhemos centenas de crianças alemãs e austríacas, órfãs de guerra e de amor, e demos-lhes casas, famílias, carinho, a vida normal que qualquer criança deve ter, com paz e brinquedos e afecto, longe das bombas e do caos lá de onde vinham. Mas lá está, o tempo apaga tudo, até a gratidão, e ai está a arrogância de volta, junto com o desprezo pelos aparentemente mais fracos. Onde já vi eu este filme?

Ok, eles até podem ter alguma razão, no sentido em que o dinheiro é deles e a estroinice nossa. Pelo menos de alguns de nós, que eu cá nunca fiz auto-estradas, nem plantei girassóis, nem comprei frotas de carros de luxo..mas bolas, há maneiras de fazer e dizer as coisas não é verdade? Quer dizer, PIGS???? E dedinho esticado e olhar de desdém e ralhetes e recados e exigências e nós de chapéu torcido nas mãos suadas e olhar baixo e vozinha gaguejante, yes sir, oui monsieur, ja Ma'am, por favor mais uma moedinha..vão-se mas é fornicar pá, haja decoro e orgulho.

Não sei o que vocês pensam disto, mas eu cá começo a ficar um bocadinho farto desta gente, para quem o dinheiro é mais importante do que as pessoas, que não se importam que haja crianças a ir para a escola com fome e vellhos a morrer de miséria, desde que se equilibrem as contas. Metam mas é as contas num sitio onde não vai a luz do Sol, eu cá não quero um mundo assim para o meu filho. Está nas nossas mãos. Que às vezes só me apetecia que estivessem à volta da garganta de alguns Gaspares que por ai há. No próximo texto volto ao Amor, este ainda é de revolta.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Há alguns anos e várias vidas atrás estive no México, em Chiapas, a fazer uma reportagem (várias na verdade), sobre o movimento zapatista, para quem não saiba um movimento guerrilheiro pró-indigena, liderado pela figura legendária do sub-comandante Marcos. Mas esta história não é sobre os zapatistas, por muito interessantes que possam ser. É sobre nós, a TSU agora transformada em NQTSUAMENC (não Querias a TSU Agora Mete Estes No Cu), o Gaspar, o Coelho, os outros Gaspares e outros Coelhos, os impostos, mais impostos, ainda mais impostos, os bandidos, a miséria e o limite. O limite que os nossos amigos zapatistas muito bem sintetizaram num dos seus magnificos slogans - YA BASTA!(lusitano dos 7 costados passo agora a referir-lo como JÁ BASTA!).
Pssssst, cansado de ser explorado? Farto de ver, ouvir e sentir na pele, que tem que apertar o cinto mais e mais e mais? Indignado com o facto (com c, que eu não vou cá em mariquices pós-modernas) de quem lhe exige todos os sacrificios, não se dignar a dar um de exemplo? Sempre que ouve a palavra austeridade lembra-se de a sua avó lhe explicar como se matava um coelho? Sempre que ouve o nome Gaspar recorda com saudade o tempo em que ele se chamava Gasparzinho e não passava de um fantasminha brincalhão? Pois então tenho que o informar que esses são os sintomas de uma doença nada nova e pouco rara que se chama "ser português de classe média de alcunha o cronicamente fodido (para ler de um folego)".
Mas o que é isto senhoras e senhores? JÁ BASTA, não? Ou é espremer até sair sangue? Pode ser que um dia saia é o vosso sangue, ó vós que vos sentais nas senhoriais cadeiras ministeriais e que acham que tudo vos é devido..tenho uma ideia, vendam a frota dos vossos (perdão NOSSOS) "carrinhos", cortem os vossos ordenados para metade, acabem com os vossos próprios subsidios e apoios disto e daquilo, transformem os "tachos" em panelas de comida para quem precisa e  os boys em men, extingam a maior parte desse escandalo que são as PPPs e as (a)fundações com dinheiros públicos, tenham vergonha na cara e decência no comportamento, deixem de se servir para servirem, transformem-se de políticos de opereta em estadistas de corpo inteiro e vão ver que num instante, sem matarem os velhos e os doentes e correrem com os jovens, este país volta a ser grande. Ou pelo menos médio, vá lá..
Acordem gentes. Acordem e exigam explicações sobre que merda é esta do BPN? E exigam não pagar os desgovernos que eles fizeram e fazem. E exigam contas. São vocês que lhes pagam os ordenados e as mordomias principescas, é a vocês que eles têm que prestar contas, de tudo, mas mesmo tudo. Ou vão deixar que os submarinos se escondam de vez nas profundezas? Com o vosso dinheiro? Vejam os exemplos de fora, vejam os islandeses, vikings sem medo de mostrar os cornos. JÁ BASTA!
E já agora pensem nisto - os zapatistas tinham outro slogan, em caso do primeiro não bastar (lembras-te Isabel?):
Espirito de poeta
Alma de criança
Coração de guerreiro!



 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


Pois que sim o Amor existe. Estava ali, mesmo à minha frente, sempre que o Pedro olhava para a Ana e a Ana para o Pedro, olhos nos olhos e mãos que não se largaram nunca. O Pedro tem 39 anos e a Ana 41. Há pouco mais de quatro a Ana teve uma complicação cirúrgica e um AVC, que a deixou parcialmente incapacitada e com grandes dificuldades de comunicação. O problema da Ana já vinha de trás, estava diagnosticado, era tudo uma questão de tempo até o inevitável acontecer. Era uma bomba relógio à espera de rebentar, conta o Pedro serenamente, olhar límpido. Sabiam e mesmo assim avançaram, casaram, partilharam vida e futuro incerto. E ali continuam, juntos, sem hesitar, apesar da cadeira de rodas, do falar hesitante, das terapias permanentes e demoradas, das dificuldades inerentes a uma vida em comum em que um dos elementos é completamente dependente do outro.  Apesar da juventude, sinónimo tantas vezes de impaciência e egoísmo e procura do prazer. Apesar da dor, da incerteza, do medo do futuro, das mil limitações, das muitas frustrações. Apesar de tudo e de nada. O Pedro e a Ana acreditam em Deus, mas não na (in)justiça cósmica, que um lapso de linguagem (ou um subconsciente atento) transformou em cómica. O Pedro e a Ana são escuteiros, que às vezes, na brincadeira, carregam a Ana como um andor de nossa senhora, enquanto ela ri e entoa avés.  Agora a Ana já dorme na tenda contam com orgulho, o orgulho das pequenas vitórias, que para alguns são enormes como a vida.  Pois que sim, pode-se afirmar sem pingo de dúvida que  o Amor existe. Percebemos isso quando o Pedro, sempre de mãos dadas e olhos nos olhos com a Ana, diz ao mundo que não foi assim tão mau o que aconteceu. Podia ter sido muito pior, a Ana podia ter morrido e ele teria ficado sozinho. 

sábado, 28 de julho de 2012

Sim é verdade. Olhando para os meus texto, para o espirito que eu tenho passado deste projecto, do meu /nosso"love is a Strange Place", nos textos que tenho escrito, percebo que algo falta. Não quero que se pense, que tudo neste trabalho são rosas sem espinhos. Utopias e lirismos de lágrima fácil a puxar ao lamechas, tudo bonito, tudo amor, muita dedicação e finais felizes. Não, desenganem-se, isto aqui é a vida real. O amor é o fundamento sim, mas aqui não se vive em nuvens, sorriso eterno e mão dada, aqui há roupa suja, cansaço, desilusão, interrogações e dúvidas e faltas de paciência e desespero e lágrimas e vontade de fugir.Por muito que se ame, por muito grande que seja o espírito de sacrifício, a devoção ao outro, há dias em que simplesmente não dá mais. Em que se olha para o céu a perguntar porquê, porquê, porquê eu. Quantos de nós conseguiriam viver assim: todas as horas, todos os dias, meses, anos, toda a vida assim, até que a morte nos separe. A cuidar de tudo, dos mais infímos pormenores, dos mais sórdidos segredos, a carregar, a lavar, a alimentar, a cuidar, a amparar, a amar sobretudo. E nós, sabendo isso, perdoamos que esse amor seja por vezes obscurecido por nuvens de tempestade e mãos apertadas e dentes cerrados, porque nós, sejamos francos, não sabemos se conseguiriamos. E essa é a maior força dos fortes, terem afinal, fraquezas e momentos de dúvida e a seguir limparem as lágrimas e levantarem-se e continuarem. Sempre. Até que a morte nos separe.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Era noite lá fora, e eu sentia o suor a escorrer-me pelo peito, do calor que ainda se fazia sentir. Nenhuma luz espantava a escuridão pesada, à parte os faróis da carrinha que nos levava velozmente de volta a Tripoli e os relampagos, imensos, surreais, que rasgavam os céus e se esmagavam algures no deserto em redor. Foi na Libia, há muitos anos atrás, tantos que a memória se tornou esbatida e em tons de pastel, mas lembro-me do quanto amei aquele país, agora devastado pela guerra. Lembro-me dos banhos de mar quente à noite, da amabilidade das pessoas, dos souks despojados de turistas, do olhar de estranheza que se fazia à passagem dos visitantes. Lembro-me da imagem do ex-eterno ditador Kathaffi, omnipresente, do deserto tão vasto que parecia não ter fim, das ruínas romanas, dos nómadas, das visitas programadas a escolas e hospitais e museus, do cabelo louro da Agnieska, polaca e viajante sem fronteiras, das longas estradas sem fim, dos policias que nos seguiam, dos sorrisos que nos abraçavam. Mas lembro-me sobretudo daquela viagem, naquela carrinha à noite. Sinto como se fosse hoje o calor, o suor a escorrer-me no peito, ouço ainda o Bruce a cantar-me nos ouvidos "tenderness in the air", e dos relampagos, centenas deles, numa tempestade seca como eu nunca havia visto, nem imaginava que pudesse haver. Essa foi a minha Libia, longe no passado, num tempo que já não existe e do qual restam apenas memórias desvanecidas e fotos que teimam em me agarrar a ele. Hoje senti saudades. Saudades de ir, ir apenas, mochila de roupa e mochila de fotografia e alma cheia e cheiro de aventura. Ver o mundo pelos meus olhos e depois mostra-lo aos outros, ser a testemunha dos homens e mulheres que permanecem, cumprir a missão que me imaginava destinada. Hoje vi o que já havia visto mil vezes,  o que teima em destruir a Siria, e que já destruiu a Libia e que irá destruir outros, e outros e um dia talvez até nós e  senti que me estava a trair, que é ali que eu pertenço, onde eu quero estar. Mas depois percebo que não. Que a vida, e o que nos agarra a ela, muda e evolui e transforma-se, e leva-nos com ela. Aquela foi a minha Libia, naquela viagem de carrinha pelo deserto em que se abatiam relampagos como chuva. Na viagem que continuará para sempre em mim.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Long time no see blog of mine. Estas coisas dos blogs implicam dedicação e tempo e inspiração e vontade e de preferência tudo ao mesmo tempo, e eu confesso que me andam a falhar alguns desses itens ultimamente. Mas os amigos chegados, mesmo após algum tempo sem se verem, continuam próximos. E assim aqui estou eu de novo a botar prosa, que aqui é porto seguro para ela. Serve esta tribuna para gritar o que me vai na alma.
E falemos então de assuntos que nos são chegados - pão e circo, o que vai faltando num, vai sobrando noutro. O pão de cada dia nos tirai hoje e ontem e amanhã, a sociedade economicista e elitista que nós próprios criamos, embalados na doce ilusão de democracia. Cum caneco, até o senhor bispo, acompanhado de coro de púdicos e ofendidos,  desceu do pulpito para nos mandar para a rua gritar, vejam lá ao que isto chegou. Mas agora a sério, andamos a brincar com esta merda (viram o jogo de palavras..). Nós a pagar e eles a gozar. Mas a finjirem seriedade e e contenção, imagine-se a lata.  E eu cá até gosto de futebol. Agora é que baralhei isto tudo..
Era uma vez 20 e tantos rapazes, que até sabiam dar uns pontapés na bola, que embarcaram rumo aos reinos frios e distantes da Polónia e Ucrânia, com o objectivo de cobrirem de glória a velha Pátria lusitana, terra dos ovelheses (aparentados com os portugueses mas com o corpo coberto de lã, vivem em rebanhos e seguem o pastor que lhes dá mais porradinha). Resultados à parte, a verdade é que o povo / rebanho, lá se vai distraindo enquanto os poderes que nos (des)governam vão fazendo as suas agendas, tal como os césares faziam, dando circo às hostes para se irem entretendo. Eu até gosto de futebol, gosto muito, mas não me distraio do essencial, nem me esqueço que degrau a degrau vamos descendo a este buraco sem fundo. Espero que quando acordarmos não seja demasiado tarde. Vibro como qualquer um com os golos da rapaziada vestida de quinas, mas sei que por cada golo marcado nos afastamos mais da realidade e mergulhamos mais na utopia de que somos grandes. Grandes em quê deuses, na divida pública, nas injustiças sociais, na falta de pão e de brio? Acordem portugueses, acordem que já são horas e vamos pontapear mas é estes rabos burocráticos e chulóides das troikas e baldroikas enquanto nos resta um minimo de dignidade.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Esta é uma crónica de costumes. Bons e maus. Mas nela espreita o que me tem feito mover ultimamente, o projecto a que eu decidi chamar, para já, "love is a strange place" (de uma vez por todas, o titulo está em inglês, porque o projecto pretende ter divulgação lá fora i.e. para lá da fronteira com nuestros hermanos e com o mar aqui tão perto, e como a linguagem das imagens é internacional, permanecia a questão do titulo..). Basta de divagações. Ponto 1 da agenda: Pingo-Doce, ou o triunfo da barbárie. Antes de ser atacado pela intelectualidade bem pensante, como argumentos como "parece que são ricos (ou finos) demais para estas coisas", ou "parvalhões armados em bons, eu cá enchi a despensa", ou conparações bacocas com as filas para o hi Phone, entre outras preciosidades, recordo os numeros e os factos: dezenas de feridos, com um caso particularmente grave de uma senhora, com uma criança de 3 anos ao colo, pontapeada até necessitar de intervenção cirurgica à coluna (ressalvo que das dezenas de pessoas presentes no local, ninguem interviu..), por um bando de energúmenos, numa discussão por....um carrinho de super-mercado. Outros carrinhos açambarcados e depois vendidos pela melhor oferta. Discussões com um nível capaz de fazer corar um indio de pau, agressões, esticões, insultos, empurrões, enfim, a humanidade no seu melhor, a fazer lembrar, a um nível lusitano claro está, os tristes acontecimentos dos motins em Londres. Aproveito para relembrar que não se tratava de um estado de calamidade, guerra, cataclismo, ou desgraça iminente, em que a necessidade de sobrevivência supera todas as coisas, mas de uma merdice de uma campanha de vendas, promovida por um gigante da merceearia nacional. Eu já assisti a saques a sério. Em 2003, no Iraque, depois de a autoridades iraquianas desaparecerem do mapa, e as americanas ainda não terem aparecido nele, houve um vazio que durou alguns dias. Nesse vazio valeu tudo, até o saque do Museu Nacional de Bagdad, que tanto brado deu nos media de todo o mundo. Eu lembro-me de gente nas ruas, apinhada com os objectos mais estapafúrdios e improváveis, só porque podiam traze-los de onde estavam sem consequências. É em situações limite que se revela o melhor, mas também o pior, de nós. Não que a estratégia de marketing do Pingo-Doce seja uma situação limite, mas se um dia formos assolados por uma, o mote está dado. Às vezes penso, olhando para o panorama politico e económico do País, que nós (os portugueses) apenas temos aquilo que merecemos. Séculos de império, de possibilidades, de desbravamentos, para acabarmos à estalada por uma lata de atum. Enfim.
Em tempos como estes, tendo a perder a fé na espécie humana. A achar que não merecemos nada, talvez nem existir. Que não passamos de uns bichos, piores que bichos, que à minima possibilidade revelam o podre que têm lá dentro. Mas depois sei que não é bem assim, que há Pessoas (assim com P grande), que relançam a esperança. Esperança no futuro, onde mora o meu filho. Pessoas como a Lucília, a mãe do pedro, um menino autista, de 17 anos. A Lucília não desiste, não esmorece, mesmo quando as lágrimas lhe apertam o peito, de ser o amparo, o resguardo, a força do filho, para quem o mundo é um lugar estranho  - é amor afinal, a maior das forças não é verdade. contra ele, não há barbárie que resista. E assim, como pessoas como a Lucília, e outras que eu vou encontrando neste percurso, que escolhi testemunhar e contar, a luz vencerá. Obrigado Lucília por me lembrares que o forte não é o que rouba ao fraco, é o que o protege. E assim a minha fé permanece.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Já no dia a seguir, a eu ter estado em sua casa a fotografa-la com a mãe para o meu projecto, a Dulce fez questão de me telefonar para se certificar que eu não me esquecia que era uma missão partilhada por toda a familia - cuidar da D. Francisca -  e que todos mereciam o devido crédito por isso, não apenas ela. É assim a Dulce, que alia a modéstia própria dos fortes, à dedicação de quem cuida da mãe 24 horas por dia, desde a fatídica queda, em Agosto de 2010. Bastou um degrau, um singelo degrau, o primeiro da escadaria, para transformar uma senhora com uns dinâmicos 90 anos, activa e auto-suficiente, numa enferma acamada, dependente, alheada, uma sombra de gente que só o amor da filha, e do resto da família, mantem ligada à vida. Uma tarefa a tempo inteiro, porque a D.Francisca nem se consegue virar na cama sózinha. Mas os olhos que me fitam da cama de doente, ainda são de gente completa, com necessidades, com vontades, com mãos que agarram e que pedem carinho e festas. Só que o corpo já não obedece e o espirito por detrás daqueles olhos há muito que vive noutro lugar. "Ela julga que sou a minha irmã", diz a Dulce num desabafo triste. A irmã, percebo, apenas lá vai de vez em quando, em visita de carácter familiar, mas a Dulce não se deixa desanimar pela confusão - amor incondicional é assim, não pede nada em troca, a não ser o bem que sabe cá dentro. É dar sem receber, ver sem ser visto, sentir sem ser sentido. É amar apenas pelo prazer de amar - "Quando o meu pai morreu e ficámos só com a minha mãe, eu dormia muito junto a ela, de mão dada, com medo que desaparecesse também..". E por isso a Dulce continua ali, sempre junto à mãe, sempre atenta, sempre pronta para atender as suas necessidades, para não lhe deixar faltar nada, para lhe adoçar os dias sempre iguais, mesmo que a mãe, quando a olhe, não a veja. És uma mulher com M grande Dulce, e graças a ti eu aprendi um bocadinho mais o que é amar a sério. Bem hajas.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Houve duas frases na nossa conversa que me marcaram: a primeira foi quando ela disse  - "lembro-me como se fosse hoje, fui busca-lo à escola e ele queixou-se de uma dor no pé..." uma dor no pé. Uma merda de uma dor no pé. Até essa data o Ruben era uma criança perfeitamente normal, feliz e saudável. Um petiz loiro que sorria nas fotos, do alto dos seus quatro anos. Hoje o Ruben tem 21 anos e está numa cadeira de rodas, o corpo atrofiado e torcido por uma doença rara e medonha, uma coisa que dá pelo nome de Sindrome de Leigh. O assustador é que foi num repente, num momento um menino como todos os outros, no outro , um menino aos poucos  preso num corpo retalhado pela doença e pela dor. A outra frase veio num folêgo, um desabafo feito de força e verdade: "Enquanto o meu filho for vivo eu vou estar sempre ao lado dele, sempre, todos os momentos..".
Há 17 anos que Lobélia está ao lado do Ruben. O Roque e a amiga como ela diz, para onde vai um, vai o outro. Há 17 anos que Lobélia só dorme duas horas de cada vez, porque o Ruben tem que ser mudado de posição, para não criar feridas e porque só respira amparado por uma máquina, que não dá sinal se os pulmões dele desistirem. E por isso ela dorme, esses breves momentos, num cadeirão ao lado da cama dele. Hà 17 anos que Lobélia, veste, alimenta, acarinha, carrega, trata, cuida, ama o Ruben. Há 17 anos que são um, unidos por um elo mais forte que a vida. A esperança de vida do Ruben, quando foi diagnosticada a doença, era de um ano. Há 17 anos que ele desafia as probabilidades amparado num amor sem tamanho. Eu posso escrever 10 mil palavras e fazer fotografias sem fim, que nunca lhe farei justiça. Lobélia não sai sem o filho, não vive sem o filho, a sua vida É o filho.  E eu ali, pasmado a ouvir, a fotografar, a querer gritar. Lobélia, não mostra ressentimento, Lobélia só mostra amor. Lobélia tem mais força que todos os exércitos, mais coragem que todos os heróis, mais dedicação do que a que existe no mundo. Lobélia, que enfrenta todos os médicos, todas as enfermeiras, que vai para Paris sózinha com ele, que luta e luta, contra tudo e contra todos, para que o Ruben possa ser o mais feliz possivel, o mais normal possivel e tudo o mais que quiser ser e ela lhe puder dar. E o Ruben corresponde, cuidado, cabelo pintado, ténis de marca, roupa escolhida a dedo. Dentro do invólucro que o atraiçoou, mora um  rapaz como os outros, inteligente e vaidoso, que vai ao Facebook   e gosta de raparigas. Com um coração de leão, que aguenta todas as dores do mundo e que dores serão eu nem consigo conceber, apenas com um esgar, e umas gotas de suor na testa. Fortalecidos um no outro, enfrentam tudo. E merecem tudo.
É nestas altura que eu amo o que faço - pelo privilégio de conhecer gente assim. Oxalá o meu trabalho lhes faça justiça.

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Love is a strange place". Este é o nome do meu próximo projecto (já tinha saudades de dizer isto, o MEU próximo projecto). E baseia-se numa palavrinha singela, mas de peso inquestionável - Amor. Tantas vezes banalizado, ridicularizado, esquecido, o amor é, na minha modesta opinião, a mais poderosa das forças, o mais grandioso dos feitos, o mais emocionante dos sentimentos. Transforma covardes em heróis, egoístas em benfeitores, timidos em loucos, lágrimas em risos, risos em lágrimas, longe em perto, perto em longe, drama em comédia e vice-versa. Provoca nervoso miudinho, dores no estômago, suores frios, tremuras incontroláveis, ansias inexplicáveis. Quem nunca sentiu que atire a primeira pedra. Depois há amores, que são mais que o próprio amor. Aqueles que levam a vidas inteiras de dedicação, a sacrificios com sorrisos, a dar a própria vida em função de algo que é mais, muito mais do que nós. Amores não como o Romeu e Julieta, que isso é coisa de amadores, mas muito mais além. O amor romântico, cantado pelos poetas, entre pessoas mais ou menos bonitas, apaixonadas em plano de igualdade, em que ambos dão e recebem por medida igual, é para meninos.  Eu falo do amor que não pede nada em troca, que é feito de abnegação e dádiva total. Aquele que muitas vezes os outros perguntam como é possivel, porque não o conseguem entender.
Há dias fui com o meu filho ao hospital, numa consulta de rotina. Lá, na ala pediátrica estava esta mãe, com o filho, grande para o carrinho de bébé em que estava sentado. O rapaz, dos seus 10 anos, tinha paralisia cerebral e o que eu vi ali, entre aqueles dois seres, trouxe-me lágrimas aos olhos e um nó à garganta. Ali percebi o que era amor a sério. Ali vi o que era dedicação, o que era devoção. Nada, mas nada, era mais forte do que o que se desenrolava à minha frente. De repente não houve crise, conflito, cenários politicos ou económicos, telejornais ou problemas conjunturais que valessem alguma coisa de jeito, que não parecessem mesquinhos ou comezinhos ou infantis, perto daquela mãe e da sua alma imensa. De repente lembrei-me de algo que já tinha aprendido, mas que a vida nesta sociedade se encarrega de me fazer esquecer uma e outra vez: o que é realmente importante. E neste campo nada é de facto mais importante que o amor, o tal que faz o mundo andar à roda. Este amor assim, impossivel e asfixiante. Eu quero retrata-lo. Quero imortaliza-lo no meu espirito e nas minhas imagens. Quero conseguir prestar a minha homenagem, mostrar o meu respeito, a quem, como aquela mãe, é capaz de dar tanto. Dizer-lhes que ao pé deles, eu não sou nada. é essa gente grande que eu procuro: pais a dedicarem a vida, em cuidados e carinho, a filhos deficientes. Maridos extremosos que se desdobram em atenções às mulheres derrotadas pela idade. Donos que partilham a existência e a solidão, com mascotes improváveis. Almas que se devotam a causas impossiveis. A esses eu peço para me ensinarem a perceber o que é de fato o AMOR. Assim com letra grande. Obrigado.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Estou zangado. danado, ofendido, lixado. Hoje foi dia de greve e manifestações. Goste-se ou não, concorde-se ou não, é o que é. Pelo menos para quem lá está em funções de trabalho, como os policias e os jornalistas. Aos primeiros compete-lhes manter a ordem, aos segundos registar os acontecimentos, O que acontece é que de vez em quando essa ordem perverte-se. Normalmente quando a policia, em, condescendamos, cumprimento do seu dever decide carregar contra quem se manifesta. Até aceito que por vezes é necessário, quando grupos de imbecis, por exemplo,se decidem dedicar a destruir património alheio. Mas do cumprimento do dever ao excesso de zelo é um pequeno passo. Acontece que os senhores policias, por vezes, talvez na embriaguez do momento, da emoção, das possibilidades da força bruta, decidem levar tudo à frente, incluindo inocentes e, claro, reporteres. Bolas, mas eles não são treinados para saberem o que fazem? Não é suposto perseguirem quem o merece e protegerem quem tem de ser protegido?
Em tempos idos eu próprio, numa situação semelhante fui agredido por um senhor agente. Munido de raiva e fotos esclarecedoras, apresentei queixa na esquadra mais próxima, gritei, barafustei, fiz declarações na rádio e na TV. A mim não me calam, não sobrevivi ao Afeganistão e ao Iraque para vir ser agredido por um imbecil a quem os meus impostos pagam o salário - ele trabalha patra mim não é verdade? Moral da história, pedidos de desculpa oficiais, pedidos de desculpa não oficiais, até pedidos de desculpa pessoais, do agente em questão. Saciado acedi, que não sou de rancores. Mas eis que a situação se repete, não comigo mas com camaradas de armas. Mas que merda de democracia é esta, em que o seu primeiro garante, os jornalistas, são agredidos pela autoridade quando se limitam a cumprir as suas obrigações? Não se iludam, este é o primeiro passo. Qualquer dia a democracia que nos querem enfiar pela cabeça abaixo, vai exigir mais. Vai exigir não ser contestada, e vai perseguir quem o fizer, através dos seus cães de fila, estes senhores fardados e armados que são suposto proteger-nos. Continuem a baixar a cabeça e depois queixem-se. A mim não me calam.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Então a coisa é assim: Já quase me tinha esquecido, quero dizer, nunca esqueço, mas de vez em quando consigo, hummm, atenuar...chamo-lhe o Sindroma de Capa. A história conta-se em duas penadas, Robert Capa, quando cobriu o desenbarque na Normandia, coisa pouca como se pode imaginar, enviou os rolos de fotografias sofridas, para revelação e impressão às mãos de um jovem assistente. Este conseguiu destruir a maior parte das imagens. Imagine-se o que se sente sendo o fotógrafo. Imagine-se? Eu consigo vive-lo. 
Quando vim do Iraque, em Abril de 2003, depois de mais de um mês de guerra intensa, tive também a grata supresa de ter grande parte das minhas imagens destruidas, às mãos do laboratório onde as mandei processar. Aquele ali nas arcadas do C.C. Libersil, ali para os lados da Av. da Liberdade, conhecem? Creio que agora se chama CompletView... foi tão dramático que até queixa no Diap eu fiz, com os resultados esperados - nada. Afinal era a minha palavra contra a deles. Curiosamente nem todos os rolos (eram todos, da mesma marca e modelo) foram massacrados. Apenas aqueles perto da altura da queda da estátua do Sadam, na Praça do Paraiso, recordam-se?
Sem querer parecer picuinhas, eram de facto as imagens de cariz mais delicado; como as do episódio que narrei aqui, no post anterior e outras, como de uma vez em que entrámos no aeroporto de Bagdad, quase sem o querer, ainda fumegante dos combates, muito antes de ser dada autorização aos jornalistas para lá puderem entrar. Curioso não é? Altura das teorias da conspiração: todos os locais na Europa e EUA que trabalhavam, ou se relacionavam de perto, com jornalistas, na altura da guerra, eram vigiados de perto pelos serviços secretos. Razão - prevenir a divulgação de imagens ou informação que pudesse ser contraditório (lindo) ao esforço de guerra. Vamos lá a ver, no meu caso, imagens que provavam o massacre de civis inocentes (e logo às centenas) no fogo cruzado, podiam ser pouco benéficas para as potências empenhadas em levar a luz, sob a forma de porrada, aos povos bárbaros do Oriente. Afinal quantos danos colaterais se podem justificar, não é verdade?
Também se pode ter dado o caso de o próprio laboratório, por incuria, ter destruido aqueles rolos. Mas bolas, é (era?) gente profissional que trabalhava com profissionais, certo? Ou não?
Argumento 1 do laboratório na altura - "alguem lhe sabotou os rolos"..não senhores, os rolos dormiam comigo, comiam comigo, até iam à casa de banho comigo.  E porque iria alguem sabota-los? Logo aqueles, que ainda dentro das bobines, não se destiguiam dos outros..Argumento 2 do laboratório na altura - "raios x no avião"...certo, os raios x no aeroporto até são selectivos nos rolos, lixam uns, mas poupam outros, exactamente iguais. E os raios x não velam completamente a pelicula, poupem-me...
E porque raio decidi voltar a este assunto passado tanto tempo. Porque me lembrei e fiquei lixado, uma vez mais. Porque ainda guardo as peliculas, lá em casa, fantasmas de coisas que eu sei que vi, e vivi, mas não posso provar. Porque digo-vos, eles andam ai...porque aconselho-vos, evitem aquele laboratório, ninho de incompetência e irresponsabilidade (vá, processem-me). Porque pelo menos agora, tenho uma tribuna onde posso expor os meus casos. Porque, às vezes, ainda, quando penso no caso, só me apetece gritar. E então decidi calar os gritos e transforma-los em escrita.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Abril de 2003 - numa estrada perto de Bagdad, que ligava a capital do Iraque ao aeroporto, entrámos no inferno. De súbito e sem aviso, a estrada fica congestionada; de carcaças carbonizadas de veículos, ainda com os ocupantes lá dentro. Mais de dois quilómetros da mais dantesca das visões, uma coluna de refugiados apanhada no fogo cruzado, sem hipóteses de escapatória. Não sei se alguém sobreviveu, mas o que eu sei, foi que, no tempo irreal que demorámos a percorrer a longa serpente de ferros retorcidos, queimados,esmagados, o meu cérebro como que bloqueou. Ecoam-me na memória, em tons vagos mas pungentes, imagens de corpos negros e calcinados, de bocados de gente, de uns pés soltos, sapatos e meias, nada acima do tornozelo, uns pés apenas. De mãos estendidas, de esgares de dentes demasiado brancos, de desespero e de dor. Volutas de fumo enchiam o ar e queimavam a garganta; e depois havia o cheiro. Sim, eu já o conhecia, mas nunca nos habituamos verdadeiramente.  Alguém ai consegue conceber o cheiro de mil cadáveres queimados e a caminho da decomposição? Nunca mais nos sai da roupa, nem da alma. Sim, eu já fui ao inferno.
E porque falo eu nisto, numa véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração?
Porque não esqueço. Nem me lembro. Vive aqui, no limbo.
Porque nunca é demais lembrar. Porque por muito má que vos pareça a nossa situação, é véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração.
Porque temos obrigação de ser felizes, apesar de todas as troikas e baldroikas.
Sejam felizes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ontem zanguei-me. Comigo próprio a ver televisão. Mais zangado fiquei por não ser capaz de mais do que me zangar. Inutilmente. Ainda. Vamos a factos, na televisão, então, falava o Primeiro Passos, "lider" desta nau desgovernada. E rezava assim: "Temos que fazer sacrificios..". Temos? TEMOS? Mas ele faz algum sacrificio, pergunto eu de modo ingénuo? Em que é que a vidinha dele é afectada pelas palavras que profere, assim impunemente, como se fosse assim mesmo? Sacrificios..disso eu sei. Eu e os outros milhôes de portugueses que de facto têm de pagar os desmandos daquela corja de abutres que há séculos nos (des)governam. Bolas, que lata. Parece quase o lamento presidencial de há pouco, que até peditórios incentivou, coitado do homem, não vá morrer na miséria. Quer dizer, eles curtiram e curtem,e partem e repartem, à grande, à portuguesa, o dinheiro de todos nós, que depois, em faltando, ai que é preciso sacrificios e tal. Sacrificios dos de sempre não é mr. Passos e apaniguados.Que lata senhores. Pouco depois, também na tv, passava uma história de duas velhotas sós, naquela solidão de velho, algures em Lisboa. A de noventa e tal! tomava conta da de oitenta e picos! acamada. Entre medicamentos e despesas várias, e necessárias, o dinheiro, claro, escasseava. Escasseava muito. Ai velhice, qu além de só, és miserável. E entretanto, rodeado de mordomias pagas por mim (sim por mim, e por ti otário como eu) e de favores, e de compadrios, o outro lá clamava:  "Temos que fazer sacrificios..".  Sacrificios o C..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

     O que  terá acontecido a uma sociedade que se revê no “Big Brother”? Que vive mais intensamente as venturas e desventuras daqueles ratos de laboratório do que o que se passa no mundo à sua volta? Que encolhe os ombros aos escândalos da corrupção, às vitórias dos indignos, que nada faz quando se arquivam casos e processos que a todos dizem respeito, quando são feitos delírios de bandidagem com dinheiros públicos.

   O que dizer de uma sociedade assim, inerte, amorfa, que se deixa pisar e humilhar apenas para não se chatear. Em que os heróis que representam os nossos valores passaram a ser uns grunhos que agridem mulheres em público e cujo vocabulário mal chega para articular duas frases seguidas. Na realidade hoje em dia para ter sucesso basta aparecer algum tempo  seguido na televisão, nem que seja numa jaula a dizer obscenidades. Para quê estudar, trabalhar, criar. Tudo desnecessário. É a cultura da imbecilidade no seu melhor. É claro que nestas circunstâncias já poucos param para pensar nas coisas que realmente importam. O que me lembra a teoria da conspiração.

   Tenho para mim que andam para aí uns poderes obscuros, acima e abaixo dos países e dos governos, que são quem realmente dita as decisões. Poderes económicos, que vivem de tráficos, de esquemas, de guerras e conflitos. Vendem e compram terras, armas, drogas, modas, necessidades, reais ou inventadas, até pessoas. Em grande escala podem ser a Microsoft, ou a diamantífera holandesa De Booers e em pequena, o dono de uma empresa de construção ou o presidente de uma junta de freguesia, mas na prática os seus objectivos são os mesmos: ganhar, mais do que os outros e não importa a que preço. É claro que para isso convém não haver oposição, e se em pequena escala a coisa se resolve com umas luvas, ou uns murros, em grande isso já é mais complicado. Por vezes há que enganar países inteiros.    

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Muito tempo que não te via Blog meu. Sabes que estas coisas que implicam tempo e dedicação nem sempre são compativeis com o ritmo de vida moderno, principalmente de quem tem filhos pequenos e não tem horários de trabalho...a vida corre-me bem obrigado, a cabeça cheia de projectos que tardam em concretizar-se. Comecemos pelo principio: quero fazer video. Aliás, para quem não saiba, eu já fiz video. Eu e o meu amigo Mário fomos para a Amazónia, meados do século passado, fazer um doc sobre a tribo de indios Deni - cinco transmissões televisivas e um primeiro prémio num festival de doc no Brasil depois, a minha curta carreira videográfica chegou ao fim. Nem sei porquê, morreu simplesmente. E entretanto o mundo mudou, as tecnologias evoluiram e muito, o Mário emigrou e eu esqueci. Ora um destes dias estava eu em casa, a vasculhar os discos rigidos e vi-os: duzias de pequenos clips, na Palestina, no Afeganistão, no Libano, rodados sem ordem nem objectivo, no intervalo das fotografias. Feitos com a pequena e fiel G7, qualidade reduzida e sentido nenhum, mas ali estavam eles: testemunhas ignoradas de momentos e sons, que jaziam esquecidos nas traseiras das hard drive, à espera de dias melhores. Então tive uma epifania (estava a ver que nunca iria ter a oportunidade de usar isto num texto. Vou repetir - epifania..). Era agora ou nunca, esta era a oportunidade para eu reaprender um meio que também é o meu afinal; fotografia, video, cinema, imagem, tudo parte de uma grande familia nem sempre feliz. E assim foi, tutoriais de premiere sacadinhos da net, programa instalado e pronto, clips avulso com fartura - a preocupação aqui não foi a excelência do resultado final, mesmo porque o conhecimento ainda é pouco e o material para trabalhar anárquico e de fraca qualidade no geral. Apenas me interessava o aprender, usando no processo coisas que de outra forma morreriam no limbo. Também me lembrei entretanto, que instalei um link para videos no meu site que continua virgem. Pois aqui vai. Agradeço os vossos comentários, apreciações, conselhos, levando em linha de conta o que disse acima. Obrigado. Bem hajam. Uma vida feliz.