terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Hoje tive uma epifania (boa palavra esta). Chegou-me, insidiosa, há uns dias, mas só hoje se materializou em palavras - foi num daqueles eventos para crianças, milhares delas, mais os respectivos papás. E ali vi. Não, a culpa disto estar como está, não é do governo. Nem dos alemães, nem do daesh, nem da economia, nem do tráfico de marfim, nem dos corruptos, nem de algum Deus mais distraído. A culpa disto estar como está, é nossa. Só nossa. De todos. A culpa do mundo avançar a passos rápidos para o desastre, a culpa das assimetrias sociais, da fome, da guerra, da miséria, do materialismo, dos energúmenos no trânsito, dos corruptos nos nossos bolsos, da destruição do ecossistema, das vitimas do ISIS, do triunfo dos porcos, é, leiam bem, de todos e cada um de nós. Ao ver aqueles pais, como selvagens, cada um em defesa da sua cria, a única a ter direito a ver em condições o espetáculo no palco, nem que para isso fosse preciso empurrar o próximo, ocupar 3 cadeiras, berrar, blasfemar, insultar, cuspir e orgulhosamente expor a sua animalidade perante os seus pares, e sobretudo perante os seus filhos, percebi. Está em nós afinal. Nós somos os corruptos, os bandidos, os criminosos, os energúmenos, os que sofrem, mas também os que fazem sofrer - está tudo nas circunstâncias da vida, nas oportunidades, nas escolhas, que quase sempre nos são impostas. Eles somos nós. A mesma espécie, a mesma carne. O mais cordeiro de nós, nas circunstâncias certas, rapidamente se torna num lobo. Basta conduzirmos no trânsito, em hora de ponta, para o constatarmos. Se formos honestos connosco mesmos, sentimos o monstro lá dentro. Só quando o dominarmos de vez, poderemos evoluir. E quiçá (outra boa palavra) salvarmo-nos.

1 comentário:

  1. Caro Ângelo, não podia concordar mais consigo. Espero que corra tudo pelo melhor no seu Workshop de fotografia e na exposição na Sertã.

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