quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Estórias 1

Às vezes lembram-me estórias de coisas passadas. Coisas que eu já quase nem acredito que vivi, apenas as fotos envelhecidas a ligarem-nas à (minha) realidade. Dizem-me que devia passa-las a livro. Talvez. Talvez um dia. Por enquanto vou lembrando-as aqui e ali, ao sabor das memórias que surgem sem aviso. Como aquele voo entre Nairobi e as montanhas Nuba, bem no coração do Sudão. Vindo do Sul desse país, então ainda dividido "apenas" por uma guerra civil longa de 40 anos, depois de duas semanas duras entre os rebeldes do SPLM, descansava agora na penumbra do meu quarto confortável, num dos melhores hotéis da capital queniana, enquanto pensava em ir ao Norte sudanês em busca da outra metade da reportagem planeada. Mas o destino tinha outros planos. Logo nessa noite o encontro com uma das personagens mais extraordinárias e intensas da minha vida, levou-me a alterar planos feitos cuidadosamente e a embarcar numa aventura diferente. Malcolm Max Cassis, bispo católico, originário das Nuba, o território mais isolado do planeta, queria lá ir passar o Natal com um avião carregado de presentes – comida, medicamentos e alfaias agrícolas. E convidou-me. E eu aceitei. Dois dias depois, embarquei no voo da minha vida – horas esquecidas, num DC-3 com 50 anos, piloto colombiano e GPS colado com fita-cola ao tejadilho, num voejo proibido sobre território inimigo e com consequências imprevisíveis. O velho avião estremecia e roncava e fumegava, arrastando-se penosamente em direcção ao seu destino longínquo, enquanto o bispo Cassis, imperturbável, rezava o terço, sentado na única cadeira destinada aos passageiros. Eu esparramado em cima de caixas de medicamentos, só pensava na possibilidade de encontrarmos a força aérea norte-sudanesa de mau humor. Mas não. Após muito, mas muito tempo, a nossa passarola lá começa a descer. No horizonte desenhava-se o contorno maçico da grande cadeia montanhosa das Nuba. A aterrissagem decorreu com a calma relativa de um pato de 40 quilos a pousar num alguidar com água, mas depois de 5 minutos de saltos e ressaltos e imprecações e coisas pelo ar lá parámos. Ufffas, palmas de alivio, parabéns e palmadas nas costas, a salvo finalmente. Seria? Não. Pelo escotilha redonda espiei uma quantidade de gente fardada a correr em direcção a nós, a brandir armas e a gritar. “Que amigáveis, vem-nos saudar mesmo efusivamente”, ainda pensei, antes de ouvir os primeiros disparos. Mas só quando o nosso piloto colombiano, em versão rally, pôs o velho Dakota a fazer um pião e a acelerar o mais rápido que podia pista fora é que eu percebi – tínhamos aterrado no lado errado da montanha, no aeródromo controlado pelas forças governamentais. A nossa retirada muito pouco digna, acompanhada de muito tiroteio, sorrisos amarelos e ainda mais imprecações foi em tudo ignorada pelo bispo, que nem um bocejo se dignou a fazer. Apenas passados uns minutos, já bem alto e longe do perigo, olhou para mim mansamente, fez o sorriso mais aberto do mundo e disse: “bem vindo à minha terra”.

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