segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Abril de 2003 - numa estrada perto de Bagdad, que ligava a capital do Iraque ao aeroporto, entrámos no inferno. De súbito e sem aviso, a estrada fica congestionada; de carcaças carbonizadas de veículos, ainda com os ocupantes lá dentro. Mais de dois quilómetros da mais dantesca das visões, uma coluna de refugiados apanhada no fogo cruzado, sem hipóteses de escapatória. Não sei se alguém sobreviveu, mas o que eu sei, foi que, no tempo irreal que demorámos a percorrer a longa serpente de ferros retorcidos, queimados,esmagados, o meu cérebro como que bloqueou. Ecoam-me na memória, em tons vagos mas pungentes, imagens de corpos negros e calcinados, de bocados de gente, de uns pés soltos, sapatos e meias, nada acima do tornozelo, uns pés apenas. De mãos estendidas, de esgares de dentes demasiado brancos, de desespero e de dor. Volutas de fumo enchiam o ar e queimavam a garganta; e depois havia o cheiro. Sim, eu já o conhecia, mas nunca nos habituamos verdadeiramente.  Alguém ai consegue conceber o cheiro de mil cadáveres queimados e a caminho da decomposição? Nunca mais nos sai da roupa, nem da alma. Sim, eu já fui ao inferno.
E porque falo eu nisto, numa véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração?
Porque não esqueço. Nem me lembro. Vive aqui, no limbo.
Porque nunca é demais lembrar. Porque por muito má que vos pareça a nossa situação, é véspera de feriado folgazão, dia de sol e descontração.
Porque temos obrigação de ser felizes, apesar de todas as troikas e baldroikas.
Sejam felizes.

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