quinta-feira, 26 de abril de 2012

Já no dia a seguir, a eu ter estado em sua casa a fotografa-la com a mãe para o meu projecto, a Dulce fez questão de me telefonar para se certificar que eu não me esquecia que era uma missão partilhada por toda a familia - cuidar da D. Francisca -  e que todos mereciam o devido crédito por isso, não apenas ela. É assim a Dulce, que alia a modéstia própria dos fortes, à dedicação de quem cuida da mãe 24 horas por dia, desde a fatídica queda, em Agosto de 2010. Bastou um degrau, um singelo degrau, o primeiro da escadaria, para transformar uma senhora com uns dinâmicos 90 anos, activa e auto-suficiente, numa enferma acamada, dependente, alheada, uma sombra de gente que só o amor da filha, e do resto da família, mantem ligada à vida. Uma tarefa a tempo inteiro, porque a D.Francisca nem se consegue virar na cama sózinha. Mas os olhos que me fitam da cama de doente, ainda são de gente completa, com necessidades, com vontades, com mãos que agarram e que pedem carinho e festas. Só que o corpo já não obedece e o espirito por detrás daqueles olhos há muito que vive noutro lugar. "Ela julga que sou a minha irmã", diz a Dulce num desabafo triste. A irmã, percebo, apenas lá vai de vez em quando, em visita de carácter familiar, mas a Dulce não se deixa desanimar pela confusão - amor incondicional é assim, não pede nada em troca, a não ser o bem que sabe cá dentro. É dar sem receber, ver sem ser visto, sentir sem ser sentido. É amar apenas pelo prazer de amar - "Quando o meu pai morreu e ficámos só com a minha mãe, eu dormia muito junto a ela, de mão dada, com medo que desaparecesse também..". E por isso a Dulce continua ali, sempre junto à mãe, sempre atenta, sempre pronta para atender as suas necessidades, para não lhe deixar faltar nada, para lhe adoçar os dias sempre iguais, mesmo que a mãe, quando a olhe, não a veja. És uma mulher com M grande Dulce, e graças a ti eu aprendi um bocadinho mais o que é amar a sério. Bem hajas.

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