quarta-feira, 4 de julho de 2012

Era noite lá fora, e eu sentia o suor a escorrer-me pelo peito, do calor que ainda se fazia sentir. Nenhuma luz espantava a escuridão pesada, à parte os faróis da carrinha que nos levava velozmente de volta a Tripoli e os relampagos, imensos, surreais, que rasgavam os céus e se esmagavam algures no deserto em redor. Foi na Libia, há muitos anos atrás, tantos que a memória se tornou esbatida e em tons de pastel, mas lembro-me do quanto amei aquele país, agora devastado pela guerra. Lembro-me dos banhos de mar quente à noite, da amabilidade das pessoas, dos souks despojados de turistas, do olhar de estranheza que se fazia à passagem dos visitantes. Lembro-me da imagem do ex-eterno ditador Kathaffi, omnipresente, do deserto tão vasto que parecia não ter fim, das ruínas romanas, dos nómadas, das visitas programadas a escolas e hospitais e museus, do cabelo louro da Agnieska, polaca e viajante sem fronteiras, das longas estradas sem fim, dos policias que nos seguiam, dos sorrisos que nos abraçavam. Mas lembro-me sobretudo daquela viagem, naquela carrinha à noite. Sinto como se fosse hoje o calor, o suor a escorrer-me no peito, ouço ainda o Bruce a cantar-me nos ouvidos "tenderness in the air", e dos relampagos, centenas deles, numa tempestade seca como eu nunca havia visto, nem imaginava que pudesse haver. Essa foi a minha Libia, longe no passado, num tempo que já não existe e do qual restam apenas memórias desvanecidas e fotos que teimam em me agarrar a ele. Hoje senti saudades. Saudades de ir, ir apenas, mochila de roupa e mochila de fotografia e alma cheia e cheiro de aventura. Ver o mundo pelos meus olhos e depois mostra-lo aos outros, ser a testemunha dos homens e mulheres que permanecem, cumprir a missão que me imaginava destinada. Hoje vi o que já havia visto mil vezes,  o que teima em destruir a Siria, e que já destruiu a Libia e que irá destruir outros, e outros e um dia talvez até nós e  senti que me estava a trair, que é ali que eu pertenço, onde eu quero estar. Mas depois percebo que não. Que a vida, e o que nos agarra a ela, muda e evolui e transforma-se, e leva-nos com ela. Aquela foi a minha Libia, naquela viagem de carrinha pelo deserto em que se abatiam relampagos como chuva. Na viagem que continuará para sempre em mim.

2 comentários:

  1. ...a vida muda e nós com ela também...mas estás sempre a tempo de pegar na tua mochila, de viajar pelo deserto da vida, percorrer estradas sem fim poeirentas, de sorriso abraçado na tua face,talvez noutra carrinha, ao som de outros relampagos, com outros cabelos louros e correr pelo tempo que já foi , mas que lá fora há sempre outro à espera.... "secret gardens" com o suor a escorrer-te pelo peito...podes olhar e viver esses tempos através das tuas fotografias mas podes voltar a vivê-los de outra forma.... mas tudo mudou....essa Líbia já não existe mas existem outras Líbias lá fora waiting for you! Good luck

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  2. Sim, a vida muda, mas nós no fundo não. As zebras não mudam as riscas e em nós permanece o que sempre fomos e nos define. Para o bem e para o mal. Obrigado.

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