sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Foi durante o almoço, daqueles de amigos, sol a aquecer o inverno lá fora, bom vinho a regar o repasto saído das mãos mágicas do Carlos. Era aquela fase já perto do fim, as barrigas confortadas, a palavra fácil, a preguiça a instalar-se. A conversa espraiou-se sem destino nem direcção e passou, claro, pela actual conjuntura sócio-económica. Um dos convivas à mesa  tinha estado recentemente na Alemanha, onde tinha tido uma picardia com um daqueles senhores louros que acham que são os donos do mundo. "Já não precisamos de exército", dizia a criatura movida a chucrute e cerveja de litro, "agora vamos dominar a Europa pela economia".

Por muita razão que se tenha, há coisas que não se dizem. Nem a memória curta de alarve desculpa tudo - este amigo, homem do mundo e de razoável sabedoria, fez questão de o elucidar, relembrando-o do quanto  a Alemanha devia ao mundo que a ajudou a levantar das cinzas, do fogo que ela própria ateou. E particularmente em relação a Portugal, mostrou-lhe o que significa para nós a palavra solidariedade, quando apesar das muitas carências que por cá havia no pós-guerra, acolhemos centenas de crianças alemãs e austríacas, órfãs de guerra e de amor, e demos-lhes casas, famílias, carinho, a vida normal que qualquer criança deve ter, com paz e brinquedos e afecto, longe das bombas e do caos lá de onde vinham. Mas lá está, o tempo apaga tudo, até a gratidão, e ai está a arrogância de volta, junto com o desprezo pelos aparentemente mais fracos. Onde já vi eu este filme?

Ok, eles até podem ter alguma razão, no sentido em que o dinheiro é deles e a estroinice nossa. Pelo menos de alguns de nós, que eu cá nunca fiz auto-estradas, nem plantei girassóis, nem comprei frotas de carros de luxo..mas bolas, há maneiras de fazer e dizer as coisas não é verdade? Quer dizer, PIGS???? E dedinho esticado e olhar de desdém e ralhetes e recados e exigências e nós de chapéu torcido nas mãos suadas e olhar baixo e vozinha gaguejante, yes sir, oui monsieur, ja Ma'am, por favor mais uma moedinha..vão-se mas é fornicar pá, haja decoro e orgulho.

Não sei o que vocês pensam disto, mas eu cá começo a ficar um bocadinho farto desta gente, para quem o dinheiro é mais importante do que as pessoas, que não se importam que haja crianças a ir para a escola com fome e vellhos a morrer de miséria, desde que se equilibrem as contas. Metam mas é as contas num sitio onde não vai a luz do Sol, eu cá não quero um mundo assim para o meu filho. Está nas nossas mãos. Que às vezes só me apetecia que estivessem à volta da garganta de alguns Gaspares que por ai há. No próximo texto volto ao Amor, este ainda é de revolta.

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