quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Acabei de ver aquela fotografia, sabem, aquela. Um miúdo, um bébe grande, dos seus quê, 4, 5 anos, pela idade do meu portanto. Mas com uma diferença fundamental em relação ao meu: este estava morto, cabeça para baixo, enterrada na areia da praia da Terra Prometida, enquanto o meu está na escola, a brincar e aprender, feliz e protegido, como é suposto os meninos e meninas desta idade estarem. Este, o da praia, já não vai mais aprender e brincar e rir e chorar e fazer palermices e pedir mimos e colo e chamar pai e mãe e tudo e tudo. Acabou para ele, onde deveria ser apenas o começo. E nós assistimos daqui. Em primeira mão, neste mundo de fast-food informativo, à frente dos nossos olhos, desenrola-se o drama, como um filme, por vezes demasiado irreal para ser possível. Milhares, dezenas de milhares, de seres, alguns apenas já vagamente  humanos, a tentarem chegar aonde a vida ainda seja possível e tantos perdendo-a no processo. Porque de onde vêm, permitido por todos nós, e causado por alguns de nós, apenas resta a escuridão.
Agora um parenteses: não, não sou apologista de abrirmos as fronteiras da Europa de par em par, movidos por sentimentos de culpa históricos, ideias politicamente correctos e liberalismos utópicos, deixando entrar todos os que assim o quiserem,  porque sei o caos que essa realidade iria causar - o caos social, económico, politico e até emocional. E sei também, que entre todos aqueles refugiados legítimos, existem aqueles que apenas querem aproveitar o ruido e a poeira, para trazerem essa escuridão até nós. E depois também existem os migrantes típicos, os de sempre, normalmente de paragens mais a Sul, aqueles da demanda do trabalho e melhores condições de vida, mas esses são um problema antigo, apesar de agora se juntar tudo numa única massa indistinta de gente. No entanto a distinção urge, porque aqueles, os refugiados mesmo, os que fogem da guerra, da fome, da miséria, da destruição,  permitidas por todos nós, e causadas por alguns de nós, esses precisam mesmo da nossa ajuda já. E que merda de espécie será a nossa, se deixarmos que mais meninos, e meninas, morram, de cabeça enterrada na areia, apenas porque não lhes estendemos o braço suficientemente depressa, porque agendamos reuniões de "lideres", bem vestidos, alimentados e cuidados, para amanhã, quando deveriam ter sido para ontem.
Eu sinto culpa - culpa de viver bem, de esbanjar, de me render à futilidade, de gastar mais dinheiro do que o razoável a comprar brinquedos que têm como destino o fundo de um cesto, de comer em excesso, de possuir roupa a mais, tralha a mais, futilidade a mais, de deixar, de olhar para o lado e assobiar para o ar. Mas sei que esses são desejos normais e legítimos de todos nós. Só que se calhar, só se calhar, apenas os deveríamos permitir a nós próprios, quando já não houvesse meninos e meninas a morrer pelos nossos pecados. E sinto ainda mais culpa de já não fazer nada, quando ainda não há muito tempo corria os infernos em defesa de causas em que deixei de acreditar. Se calhar também não tenho o direito de deixar de acreditar. Não enquanto quiser um futuro para o meu filho, que não seja determinado por seres merdosos que não perceberam que uma  vida humana é muito mais importante que todo o dinheiro do mundo. Quer dizer nem todas as vidas, as deles não com certeza.
Esta prosa é um desabafo claro. O desabafo de alguém cansado de não fazer nada. Imaginem-se  lá a fugir da guerra (eu gostava de vos saber descrever o que é uma guerra), a embarcarem num barquito com todos aqueles que amam, os tarecos que vos restaram, tolhidos pelo medo, pela angustia, pela incerteza, explorados e conduzidos pelos gárgulas que vivem da miséria alheia, em direção a uma réstia de esperança. E agora imaginem lá, se puderem, se conseguirem, que eu cá nem sequer posso, ver morrer aqueles que mais amam ali, à vossa frente, sem poderem fazer nada a não ser gritar e gritar e gritar. E entretanto, numa realidade aqui mesmo ao lado os Bush, os Abdullah, os Mugabes, os Lukashenkos, os Jong-Ils, os que fazem e os que deixam fazer, as multinacionais sem nome e sem coração, os do Daesh e os dos outros, fazem do mundo o seu recreio pessoal, indiferentes à dor que causam e que os deveria assombrar para a eternidade.
E depois ainda há outros, os imbecis,  os que acham que lutam em em nome de Deus. Mas que Deus permite uma coisa assim? Que Deus deixa crianças morrerem sozinhas, com a cabeça enfiada na areia da praia da Terra Prometida?
Desafio-vos todos a fazer algo. Nem que seja por palavras, gritadas ou sussurradas, por imagens, por actos pelo que for, mas vamos fazer alguma coisa. Não vamos deixar aquele menino morrer ali sozinho, por nada. Não desta vez. Se um  Deus mesmo bom existe,  que o guarde ao seu lado. Boa noite querido.

4 comentários:

  1. VIVA!!!! afinal não sou a única! agora tenho um novo titulo..xenofoba!

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  2. É tudo o que eu penso. Obrigado pela sua partilha.
    António Pais

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    1. Esperopartilhar mais coisas e continuar a tê-lo como leitor, obrigado.

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