quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ontem perguntavam-me onde está o gajo que estava em cima do blindado que puxou a estátua do Saddam, na última Guerra do Golfo. Quer dizer o mundo a cair, aqui à minha volta, gentes que sofrem e fogem, guerras santas, profecias do apocalipse e eu aqui, no bem bom...isto pôs-me a pensar claro, quer dizer, de facto onde anda esse gajo? Depois percebi - está mesmo aqui, a escrever esta crónica. Se tenho vontade de ir, de vestir a armadura e ir outra vez tentar mudar o mundo? Claro que sim, missão é missão, mas com o tempo percebemos que as coisas não são tão lineares; não se muda o mundo só porque queremos e há responsabilidades práticas, imediatas e próximas igualmente importantes - criar um filho por exemplo. Eu sei do que falo, sou filho de um homem com uma missão e passei 40 anos a vê-lo ao longe. decidi que não quero o mesmo para o meu. Depois há o mundo propriamente dito.
O mundo é um sitio extraordinário, numa esquina da Via Láctea com uma vista fantástica para o Universo. Infelizmente é muito mal frequentado. Tão mal, que dou por mim a pensar inúmeras vezes o quão melhor estaria sem humanos. Talvez não todos, mas definitivamente a maior parte. Sejamos honestos, a maior parte de nós está a um passo da barbárie. Somos de um modo geral egocêntricos, mimados, egoístas, mal-educados, violentos e fúteis. Grande parte da humanidade trocaria a mãe pelo euromilhões sem hesitar e apenas anos de sociedade imposta muitas vezes à força (honra seja feita às religiões nesse aspecto), nos impedem de nos estraçalharmos todos à mínima provocação. Sei que estou a generalizar, mas ressalvo o talvez não todos, escrito mais acima. O novo Deus é o dinheiro, que hoje vale muito mais que a vida, e os antigos apenas servem como desculpa (mais uma) para nos matarmos uns aos outros como cães danados.
Sejamos francos, uma espécie que deixa os seus filhos mais inocentes, morrerem impunemente em praias distantes, vale mesmo a pena ser salva? Uma espécie que se mata, tortura, viola, destrói, por dinheiro ou justificações inaceitáveis para uma mente racional, merece a redenção? Uma espécie que aceita como seus criminosos do calibre de George Bush (ambos) ou Abu Bakr Al Baghdadi (Lider do ISIS para quem não saiba), tem direito a salvação? Uma espécie que aniquila todas as outras para fazer casacos e remédios para a potência sexual, que destrói o ambiente e as coisas e tudo em nome de riquezas materiais, é digna de por cá andar? Ou mais prosaicamente, vale a pena arriscarmos a pele e o sossego por gente desta, que aparentemente não tem remédio? Pois que a resposta é...sim. de facto somos uma espécie danada, mas de novo - talvez nem todos. Talvez um dia acordemos e percebamos que somos capazes de muito mais, e melhor, que prestar reverência a cifrões ou aos seus acólitos. Talvez um dia consigamos entender, que este mundo também é nosso, a nossa casa, e que temos que fazer por ele, lutar por ele, mantê-lo, preserva-lo, ama-lo. E isso implica de certeza correr,  para trás das grades ou para o além, com todos os demónios disfarçados que se passeiam entre nós e nos impedem de sermos verdadeiramente uma civilização. Pelos nossos filhos, pelos que cá ficarão depois de nós, teremos que o fazer. Eu pelo meu lutarei. Mas, e volto ao inicio desta crónica, tudo tem um tempo e um modo; agora assim, a espernear ao computador, mas talvez um dia volte a tirar a armadura do baú.
Não há lutas inúteis em causas justas - só aquelas que não se travam.

Sem comentários:

Enviar um comentário