terça-feira, 16 de agosto de 2011


Ainda não decidi se sou a favor ou contra as touradas. Por um lado acho que é um espectáculo com uma forte componente estética e visual, de emoções à flor da pele e tradições centenárias. Por outro lado acredito que é também a apologia da barbárie no seu melhor. A morte e o sofrimento gratuitos, apenas para o divertimento de quem vê, sempre me repugnaram. Sim, eu já me alimentei de lagostas cozidas vivas (um argumento usual nos a favor), mas as lagostas e bicharada semelhante têm apenas um sistema nervoso rudimentar com a consequente falta de sensibilidade à dor. De qualquer modo acho que é um mau princípio justificar-se um sofrimento com outros.
O facto é que as touradas ultimamente estão na boca do mundo muito por culpa do caso de Barrancos. As opiniões dividem-se em contra e a favor, com uns quantos, eu e a classe política deste País incluídos, os que não são nem aficionados, nem membros de organizações de defesa dos direitos animais, nem toureiros, nem touros, perdidos numa espécie de limbo de opinião acinzentado em que dependendo de alguns factores pendem mais para um lado ou para outro. Esses factores são:
-         Serem carnívoros ou vegetarianos
-         Terem ou não tido animais de estimação em pequenos
-         Gostarem ou não de Hemingway
-         Opinião pública predominante na altura (só para politicos e pessoas fracas, sem opinião nem  
           personalidade)
-         Grau e tipo de frustrações pessoais (casamento, trabalho, saúde, infância, etc...)
-         Educação
-         Etc..
Na verdade a tourada é um espectáculo de e para bárbaros. Mas o homem é ainda um animal bárbaro com um verniz tecnológico e civilizacional que consegue por vezes fazer esquecer esse facto. Ainda precisa de divertimentos rudes e brutais (já alguma vez observaram meia dúzia de mamíferos sentados num sofá a beber cerveja e a ver futebol aos berros..) porque a própria vida ainda é brutal.
No caso especifico de Barrancos eu pessoalmente não vejo grande diferença entre espicaçar o touro até á exaustão e mata-lo depois, às escondidas, ou mata-lo logo ali. E ninguém duvide que até á tourada aqueles touros têm uma vida santa, rodeados de vacas e pastos verdes onde são reis. Uma vida de certeza melhor do que a dos infelizes parentes criados para nos servirem de comida que passam metade da existência enfiados em cubículos, alimentados  à base de rações abjectas e que para finalizar são acumulados em camiões e transportados para matadouros, onde têm o privilégio duvidoso de se observarem uns aos outros a morrer. Isto para não falar dos aviários. Sim, as touradas são brutais, mas não mais do que a condução de certos energúmenos que fazem das estradas arenas onde eles são os bois e tudo o resto panos vermelhos. Violentas mas até suaves se comparadas com certos filmes ou desenhos animados ditos para crianças.
No passado lançavam-se humanos às feras (ainda se lançam nalguns lugares tipo Ruanda ou Assembleia da República) para divertimento de quem assistia. Hoje temos futebol, touradas e guerras em directo na televisão. Um dia nada disto será necessário mas a verdade é que ainda não chegámos a esse estágio da evolução humana.
Entretanto eu ainda não decidi se sou a favor ou contra as touradas.  


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