sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fotografo a fachada de uma casa, no meio de nenhures, onde um gajo se barricou. É noite escura, o homem há muito que foi levado pela policia, ninguem na rua. Tiro uma foto e eis que aparece um vizinho daqueles..."que é que está a fotografar" pergunta, sem sequer um boa noite.."a casa que está à minha frente", respondo. "porquê?", pergunta. Já a ficar chateado, mas ainda a tentar manter a calma, respondo - "porque houve alguem que se barricou aqui à tarde, e isso é noticia para jornal." Ai começou a disparatar: porque não tenho mais nada para fazer, porque não tenho nada que ali andar, que não tenho autorização,  que não posso fazer aquilo e por ai diante. Ainda lhe tento argumentar que é só uma fachada, que estou na via pública, que estou a fazer o meu trabalho, que cumpro ordens, mas não adianta de nada. Perante o crescendo de exaltação do homem aconselho-o a chamar a policia, ou em alternativa a ligar para o meu editor. Nem liga e remata o argumento final - "e se aparecesse alguem que lhe desse um murro na cabeça?". Foi ai que baixei a máquina, lembrei-me dos anos metido no cu do inferno a fotografar gajos que comem imbecis deste ao pequeno almoço e respondi-lhe, juro que com toda a calma do mundo - "bom, nesse caso teria que lhe dar uns murros de volta". Olhou para mim, creio que atentamente pela primeira vez, abriu e fechou a boca algumas vezes e percebeu que a partir dali só lhe restavam duas opções. Decidiu-se pela retirada estratégica. Pelo caminho ainda foi a resmungar, mas só em surdina. A conclusão é muito simples e eu já há muito que a sei - as pessoas em geral só gostam de jornalistas quando lhes convèm. De resto não passam de uns intrometidos abelhudos que convem abater sempre que possivel. Democra quê?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011


“O Bug”

Algo está errado. No mundo, na vida, nas pessoas, eu sei lá. Mas algo está mesmo muito errado. O mundo não acabou e eu não vi o bug (mas que ele existe, existe) e para falar francamente também não vi mais nada de especialmente invulgar para além do que é  normal numa passagem de ano. Ainda esperei que aparecessem uns personagens de branco e longas barbas a apregoar o fim dos tempos mas não. Nem sequer uma avaria no telefone, ou um contacto com extra terrestes, ou neve no Alentejo. Nada a anunciar que a partir de agora iria ser tudo melhor, ou pior, ou diferente.  Tudo normal. Tudo igual a si próprio.
 E assim entramos no 2000 como saímos de 1999, com os mesmos problemas, as mesmas angústias e as mesmas esperanças. No fundo, se bem que já soubesse que iria ser assim, alimentava a secreta esperança  que de repente, por obra e graça de uma qualquer entidade divina, o mundo passasse a ser um lugar diferente, talvez sem impunidade e sem miséria.
 Em Lisboa moro perto de um local tristemente célebre conhecido pelo nome de Casal Ventoso. Todos os dias dezenas de milhares de contos são ali gerados através do sacrifício de milhares de seres humanos. As suas  vidas desperdiçadas alimentam gordas contas bancárias que são movimentadas por traficantes, políticos, polícias, militares, comerciantes, banqueiros  e até religiosos. Todos os dias a minha rua é percorrida nos dois sentidos, para baixo os que se vão fornecer, para cima os que já vêem aviados,  por estas almas andrajosas e perdidas, consumidas pela droga. Todos os dias ambulâncias passam em busca daqueles que sucumbiram ao seu poder. Sempre que uma ambulância passa há um cão, algures na rua, que uiva pressentindo a morte e a miséria.
 O tráfico é feito ás claras, com filas á porta dos dealers e pregoeiros que cantam as virtudes do seu produto. Dia e noite. Aqui e ali corpos jogados ao abandono e outros que para lá caminham faltando apenas encontrar a veia certa. Ou possível. O negócio é tão bom que alguns moradores do bairro alugam as casas aos dealers por quantias astronómicas. E para quem não conheça a zona sempre poderei dizer que as casas de um modo geral estão tão degradadas que não se distinguem das barracas que as rodeiam.
 Um dia deambulando por ali (faço-o sempre que preciso de “uma dose” de realidade ou sempre que começo a ver o mundo demasiado cor-de-rosa) ao virar a esquina ao fundo da minha rua, o que dá acesso ao Casal Ventoso propriamente dito, sou subitamente confrontado com uma visão dantesca; Qual filme de horror dezenas daquelas figuras condenadas vinham direitas a mim, sujas, miseráveis, trôpegas, empurradas por uma qualquer força que eu não conseguia entender, ocupando a rua toda, de lado a lado. A custo, depois de conseguir passar por eles, percebi. Uma rusga policial.
De vez em quando a policia vai por ali abaixo, fechando as vias de acesso e tentando mostrar serviço. Muito tempo antes de eles lá chegarem já os dealers avisados tomaram as suas precauções, fechando-se atrás de grossas portas chapeadas a aço, escondendo as provas do seu crime. O sistema de vigilância da zona é infalível e os vigias são pagos, em dinheiro ou “géneros”, a cerca de 30 contos por dia. Quando se ouvem os “uga”, “uga”(abreviatura de fuga) toda a gente em situação comprometedora desaparece no emaranhado labiríntico de ruas e ruelas ficando apenas os desgraçados mortos-vivos sem forças ou vontade para correrias. Esses, como aqueles que eu tinha visto, são escorraçados para fora da zona central do bairro, onde a maior parte da “actividade comercial” se dá, ficando á espera na periferia que a polícia se vá embora. Depois volta tudo á mesma.
Certo, eu sei que o nosso sistema legal (como os outros) têm algumas condicionantes, que as coisas não podem ser feitas de qualquer maneira, que não se pode simplesmente entrar por ali e prender toda a gente. È necessária prova, flagrante delito, eu sei lá. Também sei que por vezes os policias, talvez frustrados pela inutilidade dos seus esforços, se limitam a chatear toda a gente que lhes aparece, tenha ou não a ver com o assunto, e até a dar umas ocasionais porradas... 
Por outro lado acabar com o Casal Ventoso equivalia a perder de vista  os traficantes e consumidores que pelo menos ali estão relativamente controlados. E então qual será a solução? Qual a solução para acabar com um negócio de milhões e que mexe com tantos interesses? De certeza que não são debates na televisão protagonizados por algumas sumidades e doutores que analisam o problema de um ponto de vista académico e científico e que nunca na vida puseram os pés nos Casais ventosos que por aí existem. De vez em quando convidam um ex-toxicodependente para dar um ar mais realista à coisa esquecendo-se que nisto das drogas cada caso é um caso. Também não será de certeza a multiplicação de “centros de recuperação” mais ou menos dúbios e que, com algumas honrosas excepções, não passam de pura ilusão que absorvem tempo e dinheiro a quem neles acredita, para já não falar dos subsídios estatais pagos por todos nós.
 Não, eu não sei qual será a solução, apenas sei que ao fundo da minha rua mora a desgraça e a miséria e que algures na Colômbia ou noutra qualquer Colômbia mora um fulano de óculos escuros e roupa de marca, rodeado de riqueza e guarda-costas que exporta morte em pó em impunidade quase total e até com a conivência de entidades e personalidades insuspeitas. É que o apelo do dinheiro não perdoa. Pelo meio ainda existem agricultores pobres e gente que vive do que a terra dá e para quem a plantação de coca ou papoila é de certeza mais rentável do que o milho ou o arroz. E assim que se lixe a justiça e o bem-estar social. Vendemos as nossas almas, e as dos outros quando necessário, ao Deus Dólar (ou Marco, ou Libra, ou Escudo, tanto dá...) e quem vier a seguir que arrume a casa.
Onde está a justiça para onde pagamos impostos? Será que é só para alguns? Aqueles que não têm dinheiro ou que não pertencem a lobbys? Mas também que justiça se pode esperar de um sistema que deixa sem culpados a morte aflitiva e brutal de duas crianças sugadas por um tubo numa tarde de sol e piscina.
E entretanto o Casal Ventoso lá vai continuando á espera da tal entidade divina que se preste a vir cá abaixo resolver os males do mundo. Pode ser que seja para o ano. 
Esta crónica é dedicada ao Ricardo, meu amigo, morto aos 25 anos no Casal, devorado pela droga e pela incapacidade de viver nessa realidade suja que não queria e onde caiu sem que até hoje se percebam as razões.  

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!

terça-feira, 16 de agosto de 2011


Ainda não decidi se sou a favor ou contra as touradas. Por um lado acho que é um espectáculo com uma forte componente estética e visual, de emoções à flor da pele e tradições centenárias. Por outro lado acredito que é também a apologia da barbárie no seu melhor. A morte e o sofrimento gratuitos, apenas para o divertimento de quem vê, sempre me repugnaram. Sim, eu já me alimentei de lagostas cozidas vivas (um argumento usual nos a favor), mas as lagostas e bicharada semelhante têm apenas um sistema nervoso rudimentar com a consequente falta de sensibilidade à dor. De qualquer modo acho que é um mau princípio justificar-se um sofrimento com outros.
O facto é que as touradas ultimamente estão na boca do mundo muito por culpa do caso de Barrancos. As opiniões dividem-se em contra e a favor, com uns quantos, eu e a classe política deste País incluídos, os que não são nem aficionados, nem membros de organizações de defesa dos direitos animais, nem toureiros, nem touros, perdidos numa espécie de limbo de opinião acinzentado em que dependendo de alguns factores pendem mais para um lado ou para outro. Esses factores são:
-         Serem carnívoros ou vegetarianos
-         Terem ou não tido animais de estimação em pequenos
-         Gostarem ou não de Hemingway
-         Opinião pública predominante na altura (só para politicos e pessoas fracas, sem opinião nem  
           personalidade)
-         Grau e tipo de frustrações pessoais (casamento, trabalho, saúde, infância, etc...)
-         Educação
-         Etc..
Na verdade a tourada é um espectáculo de e para bárbaros. Mas o homem é ainda um animal bárbaro com um verniz tecnológico e civilizacional que consegue por vezes fazer esquecer esse facto. Ainda precisa de divertimentos rudes e brutais (já alguma vez observaram meia dúzia de mamíferos sentados num sofá a beber cerveja e a ver futebol aos berros..) porque a própria vida ainda é brutal.
No caso especifico de Barrancos eu pessoalmente não vejo grande diferença entre espicaçar o touro até á exaustão e mata-lo depois, às escondidas, ou mata-lo logo ali. E ninguém duvide que até á tourada aqueles touros têm uma vida santa, rodeados de vacas e pastos verdes onde são reis. Uma vida de certeza melhor do que a dos infelizes parentes criados para nos servirem de comida que passam metade da existência enfiados em cubículos, alimentados  à base de rações abjectas e que para finalizar são acumulados em camiões e transportados para matadouros, onde têm o privilégio duvidoso de se observarem uns aos outros a morrer. Isto para não falar dos aviários. Sim, as touradas são brutais, mas não mais do que a condução de certos energúmenos que fazem das estradas arenas onde eles são os bois e tudo o resto panos vermelhos. Violentas mas até suaves se comparadas com certos filmes ou desenhos animados ditos para crianças.
No passado lançavam-se humanos às feras (ainda se lançam nalguns lugares tipo Ruanda ou Assembleia da República) para divertimento de quem assistia. Hoje temos futebol, touradas e guerras em directo na televisão. Um dia nada disto será necessário mas a verdade é que ainda não chegámos a esse estágio da evolução humana.
Entretanto eu ainda não decidi se sou a favor ou contra as touradas.  


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vejo aquilo que se passa em Londres e pasmo. O que se passa na cabeça das pessoas hoje em dia? Quer dizer, revoltarmo-nos por uma causa, com uma razão concreta, sem mais saidas, faz todo o sentido para mim. Agora só porque sim? Porque se é jovem e estouvado?. Porque se acha que..? Violência pela violência, nada mais. Eu vivi muita ao longo da minha vida. A suficiente para saber que raramente faz sentido. Como agora neste caso, em que se pilham pessoas inocentes porque se está chateado com a vida. Mas que merda é esta, trabalha-se a vida toda, monta-se um pequeno negócio, ou compra-se um automóvel, coisas estimadas e fruto de suor, para vir um bando de vandalos e espatifar tudo? No tempo dos vandalos era norma, convenha-se, mas hoje é suposto estarmos num estádio diferente de evolução. Ou não? Quer dizer, sou jovem, vivo nos suburbios, à pala de subsidios, estou descontente com a vida (apesar de usar ténis de marca e ter sempre guita para charros e cerveja), acho que os impostos estão altos e tal (como se tivessem que os pagar..) que o governo não presta (apesar de nunca ter votado) que a situação está má (mesmo que nunca tenha lido um jornal) e pronto. Aproveito que a policia deu um tiro num bandido (mas não é assim mesmo, policia e bandidos não costumam andar aos tiros eventualmente com vitimas? Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, penso eu...) e ai vou eu mais uns amigalhaços pôr a vida de gente honesta e trabalhadora a ferro e fogo.  E depois vêem umas sumidades para a televisão, falar do descontentamento dos jovens, dos problemas sociais, das familias destruturadas...falta de porradinha nos cornos é o que é. Deixemo-nos de mariquices, o unico argumento contra a chuva é o guarda-chuva. Deixem-se andar que qualquer dia são todos comidos.

domingo, 7 de agosto de 2011

Dá gosto ver que ainda há malta que consegue mover mundos e fundos, enfrentar contrariedades e maldicências, velhos do Restelo e bota abaixos, falta de dinheiro e de estímulos, más vontades e invejas, para levar a cabo iniciativas que fazem este país crescer mais um bocadinho. Nomeadamente no sector cronicamente subalternizado das artes e cultura. Falo, como não podia deixar de ser, da "Maior Exposição do Mundo" (assim mesmo, tudo em caixa alta). As fotografias  da Cátia Alpedrinha , da Cinda Miranda, do Eduardo Gageiro, do Emanuel Gonçalves, do Greg Marinovich e do João Silva,  do Humberto Sarmento, do João Carlos, do José Carlos Nascimento, do Kadir, da Luísa Ferreira,  do Miguel Cabrita Matias, da Mónica B, do Simon Frederick, da Sonja Valentina, o espólio da Família Vasco Morgado, entre muitas outras imagens (incluindo deste vosso humilde escriba), vão estar desta vez patentes no Funchal, para que mais gente possa usufruir delas. Para o ano espera-se mais e ainda melhor na edição 2012. Fotógrafos e amantes de fotografia, ponham os olhos nisto, apoiem e incentivem projectos que são de todos vós e para todos vós. A fotografia agradece.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Avizinham-se mais medidas de austeridade, nas palavras austeras (redundância eu sei..) do nosso piqueno (assim mesmo, com i) ministro das massas. Pá porque não apontam de uma vez uma arma ao pessoal e se limitam a dizer "passem para cá a guita"?? roubar por roubar sempre era mais honesto. Sim eu sei que é necessário equilibrar as contas, cumprir o déficit e outras coisas que tais, mas bolas assim não dá. Quer dizer, a malta trabalha, trabalha, trabalha e depois vai a ver e carteirita sempre vazia.. mas vale a pena? convenhamos o que tá a dar é aderir à tribo do subsidio-dependente, faz-se pouco ou nenhum e tem-se a compreensão e o apoio do querido Estado - à pala aqui dos otários como é obvio. Alguem tem que pagar as contas. Começo a ficar cansado, muito cansado, que me vão ao bolso e nem peçam licença. O sistema não dá? mude-se. Metam os calinas a trabalhar, há ai muita terra por lavrar... subsidios e apoios só para quem não puder mesmo subsistitir de outra forma (deficientes, velhotes sem fontes de rendimento e por ai). Hoje estou assim, pronto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Acabaram as aulas, agencia em slow down com as férias judiciais e politicas (enfim, estas a meio gaz), tempo para pensar em novos projectos e descansar um pouco. O fotojornalismo está em crise? pode ser que sim, mas o foto-documental, o documentário video e fotográfico ainda é um bom caminho a seguir, nem que seja pelo gozo que dá. Ainda há ai muitas histórias para contar, com jeito até se arranjam suportes para as mostrar e com ainda mais sorte até pode ser que paguem para as despesas...paralelamente "A maior exposição do mundo" vai para a Madeira (prova de que as boas ideias têm mesmo asas para voar) e com ela as minhas fotos. Ainda há muita coisa por fazer de facto, its a big world out there. Aceitam-se boas sugestões..